• Ale Nagado

Patrulha Estelar Yamato - O mangá

A mais famosa obra de um dos mais reverenciados mestres dos quadrinhos japoneses.

Um antigo sucesso da animação japonesa tem sua versão em mangá lançada oficialmente no Brasil, décadas após seu momento de grande popularidade. No início da década de 1980, a saudosa TV Manchete apresentou as aventuras da valente Patrulha Estelar em suas batalhas para defender a humanidade contra invasores espaciais. Série icônica em seu país, o animê tem seu mangá oficial produzido pelo co-criador da saga, o lendário Leiji Matsumoto.


Após décadas de espera, chega aos leitores brasileiros uma compilação com todas as histórias que foram produzidas pelo artista, simultaneamente às duas primeiras séries de TV. A título de registro, o público brasileiro viu a segunda e a terceira série da saga original, bem como a aclamada versão live-action, já exibida no canal pago HBO.


Na trama, no ano de 2199, a Terra se tornou um deserto árido e radioativo, com sua população sobrevivente ocupando enormes abrigos subterrâneos. A culpa é do conquistador Império Gamilas, que decide ocupar a Terra, pois a vê como o refúgio ideal para seu povo, já que seu planeta está condenado devido a um colapso em seu interior. As bombas emitem uma radiação inócua para os habitantes de Gamilas, mas fatal para os seres humanos. Para ocupar o planeta, gigantescas espaçonaves rumam para a Terra. O líder da invasão é o implacável Desslar, chamado de Desslock quando a saga foi exibida no Brasil.

Do distante planeta Iskandar, vem uma mensagem da rainha Star-sha, que oferece ajuda à Terra. Ela transmite informações e planos de engenharia que permitem a criação de uma espaçonave à partir da carcaça de um antigo navio afundado na Segunda Guerra Mundial, o Couraçado Yamato.


Equipado com a inovadora tecnologia do Motor de Ondas, o renascido Yamato pode realizar saltos dimensionais, sendo assim capaz de viajar rapidamente aonde naves terrestres jamais haviam chegado. Além disso, a imensa energia gerada pode ser canalizada para a proa, onde se aloja o destrutivo Canhão de Ondas, a arma definitiva do Yamato. [Nota: Na versão para os EUA, a nave se chamava Argo e foi eliminada sua relação com o navio verdadeiro.]


Então, uma tripulação é reunida às pressas para que a nave possa cumprir sua missão, que é chegar até Iskandar para receber de Star-sha o mecanismo Cosmo Cleaner, capaz de limpar a atmosfera terrestre. Em linhas gerais, essa é a trama da série original, adaptada por seu próprio autor para o mangá.


A versão da NewPOP utiliza a nomenclatura original japonesa, mantendo apenas o título da obra alusivo à versão em animê exibida no Brasil.

Capa do volume um da compilação original.

Na ponte de comando, está o veterano Capitão Juzo Okita, que na adaptação americana era chamado de Capitão Avatar. Sob suas ordens, Susumu Kodai (ou Derek Wildstar no ocidente), Shiro Sanadá (Sandor), Daisuke Shima (Marc Ventury), Yuki Mori (Nova nos EUA, Lola no Brasil), Aihara (Rohmer) e muitos outros jovens e destemidos oficiais juram sacrificar a própria vida para salvar a Terra. Entre os veteranos, além de Okita, estavam o dr. Sado (Dr. Sam) e o chefe de engenharia Tokugawa (chamado de Orion na versão americana). O robô ajudante, que era conhecido por aqui como IQ-9, foi batizado de Analista, uma tradução do nome original, Analyser.


O mangá do Yamato foi publicado no Japão entre novembro de 1974 a abril de 1975, na hoje extinta revista mensal Bouken Ou ("Rei da Aventura"), da editora Akita Publishing Company. Essa série original em mangá foi feita simultaneamente à saga na TV, que teve participação ostensiva de Matsumoto, desenhando story-boards, criando artes conceituais e dirigindo episódios. No entanto, o curto número de páginas por edição acabou fazendo com que o mangá fosse uma edição extremamente condensada da história, com saltos que atropelam a narrativa. O próprio autor meio que se desculpou por isso, dizendo que o mangá seria mais um resumo dos acontecimentos do animê. A impressão fica mais forte no final, certamente.


O ápice da história, que seria a chegada a Iskandar mais o grande confronto em Gamilas, acaba sendo contado em flashback, como se fosse uma recordação para quem tivesse assistido aos fatos correspondentes na série de TV. Essa aventura, a que mais importa, conclui na página 243 da edição brasileira, menos de metade da edição.


Impossível explicar sobre os percalços da versão em mangá sem dissociar do animê. A baixa audiência da série de TV acabou reduzindo a duração da saga, e isso se refletiu no final apressado do mangá. No entanto, a exibição em cinemas de uma compilação da série fez um sucesso inesperado em 1977, e no ano seguinte foi lançada a continuação, um grandioso filme com a batalha contra o Cometa Império.


Começava o chamado Anime Boom, a febre por animê que varreu o Japão, conquistando um público juvenil e adulto. O novo longa fez muito sucesso em 1978, mas seu final trágico levou a produtora a anunciar que aquela seria uma história "alternativa" e a saga foi reformulada para se transformar na série 2 do Yamato, ainda naquele mesmo ano de 1978. Esta é, inclusive, a série que ficou mais conhecida no Brasil.

Traço bem cartunizado e maquinário rebuscado, uma combinação fascinante. (A edição brasileira não tem páginas coloridas)

Para tentar capitalizar aquele ressurgimento do título e a nova temporada na TV, Leiji Matsumoto começou a produzir uma nova série em mangá, que durou entre julho de 1978 e janeiro de 1980, na mesma revista Bouken Ou. Infelizmente, a repercussão da adaptação ficou aquém do esperado e o mangá foi deixado incompleto. Em suas páginas, chega a aparecer, com destaque, a nave Andrômeda e seu comandante, Hijikata, chamado de Gideon na versão americana da série 2.


Nesse segmento introdutório ao Cometa Império, a narrativa é muito mais contemplativa, e tem-se a impressão de que os assistentes de arte tiveram um papel muito destacado na produção, pela irregularidade do traço, especialmente em uma página dupla com a tripulação reunida na ponte de comando (págs. 396 e 397). Ainda assim, o mangá do Yamato tem partes maravilhosas, mesmo não sendo um dos trabalhos favoritos de Matsumoto, que tem como destaques em sua vasta obra os épicos espaciais o Galaxy Express 999 e o Pirata Espacial Capitão Harlock.


Entre uma série e outra, houve também um conto em mangá sobre a esposa e a filha de Desslar, que foi incluída na edição de agosto de 1976 da revista Play Comic. A história é ambientada durante a viagem para Iskandar e tem boas passagens, com um drama bastante intenso e tocante.


Essas duas sagas, uma completa e outra incompleta, mais a história curta, foram reunidas em três volumes pela Sunday Comics. Com todo o material reunido em volume único, a edição brasileira apresenta todas as histórias do Yamato produzidas por Leiji Matsumoto.


Os que acompanharam a série animada na TV Manchete, ou que conhecem o reboot Yamato 2199 poderão estranhar bastante o traço original de Leiji Matsumoto. Bastante identificado com o cartum e a caricatura, sem preocupação com proporções rígidas, o desenho do autor é expressivo, com maquinários complexos e fantasiosos, onde o visual se sobrepõe à funcionalidade.


Sua narrativa visual é poética e sua diagramação é arrojada, com quadros estreitos e elegantes que emolduram seu traço, com acabamento de pincel traçado de forma quase caligráfica. É um material belíssimo para quem aprecia linhas mais estilizadas.


Matsumoto se baseou vagamente nas orientações do produtor e coautor do animê, Yoshinobu Nishizaki (1934~2010), e produziu uma versão bastante pessoal da obra. Inclusive, há uma sequência em que ele apresenta um protótipo do que seria seu mais importante e representativo personagem, o já citado Harlock. Mesmo tendo sido uma obra encomendada, Yamato traz muitos elementos caros ao autor, como a valorização dos sentimentos de honra, lealdade e senso de dever.


Patrulha Estelar Yamato é o primeiro lançamento oficial de uma obra de Leiji Matsumoto no Brasil. Autor cultuado, era o último dos grandes mestres do mangá a permanecer inédito em nosso país. A adaptação do reboot da franquia, intitulado Yamato 2199 (sem a participação do mestre), também está nos planos de lançamento da editora.


Independente dos problemas já mencionados, e mesmo sendo uma obra inacabada e abandonada pelo autor, esse lançamento do selo Prime da NewPOP Editora é um marco na publicação de mangá no Brasil. É o registro, belamente impresso e luxuosamente apresentado, de uma obra representativa de um dos mais importantes autores dos quadrinhos japoneses, em todos os tempos.

Título: Patrulha Estelar Yamato Título original: Uchuu Senkan Yamato (1974) Roteiro e arte: Leiji Matsumoto

Tradução: Thiago Nojiri Prefácio: Levi Trindade

Formato: 15 x 21,06 cm, com 648 páginas Total: Volume único Lançamento no Brasil: NewPOP Prime (2021)

- Classificação indicativa: 16 anos


Alexandre Nagado

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