• Ale Nagado

Mangá: Virgem Depois dos 30

Um contundente documentário em quadrinhos.

O Japão possui em sua população milhões de adultos de meia-idade (geralmente homens) que nunca tiveram uma relação sexual ou relacionamento amoroso na vida. O resultado disso tem alarmado o governo há anos, pois a baixa taxa de relacionamentos culmina em taxas de casamento e natalidade cada vez menores. Uma nação com maioria de idosos e cada vez menos crianças é uma tragédia sob vários aspectos, pois reflete uma população fadada ao desaparecimento, com uma grande crise previdenciária em seu caminho. Tendo tido contato com pessoas dessa demografia de virgens sexuais e emocionais, o escritor Atsuhiko Nakamura assinou um contundente relato em forma de mangá. É o Mangá-Documentário: Virgem Depois Dos 30, lançamento da editora Pipoca e Nanquim. Trata-se de uma história em quadrinhos densa, indigesta e que aborda um lado sujo e doente da sociedade japonesa, normalmente vista com muita limpeza e organização. Esses virgens de meia-idade formam um batalhão de homens fracos, incapazes de lidar com rejeição e de se comunicar com as mulheres japonesas, cada vez mais liberadas, independentes e exigentes. Os contornos doentios que a situação provoca, como a perda de autoestima e até de asseio pessoal chocam quem tem a imagem de um Japão asséptico tal qual uma clínica de luxo.

O material foi publicado no site LEED Cafe e depois gerou um documentário em formato livro em 2014. Depois, em parceria com o desenhista Bargain Sakuraichi, foi feita a versão em mangá, que também foi mostrada primeiro no site e depois ganhou edição impressa. A narrativa é crua, direta e é tratado como se fosse um documentário filmado, com os personagens muitas vezes falando diretamente para a câmera ou, nesse caso, para o leitor.

O desenhista Bargain Sakuraichi, pseudônimo de Toshifumi Sakurai, é oriundo de revistas adultas. Seu estilo não guarda semelhança com o que estamos acostumados a chamar de mangá, estando mais alinhado ao que se chama gekiga (leia "guekigá"), ou "desenhos dramáticos". O traço é bastante caricato, mas uma estilização derivada da observação da realidade, não uma estilização cartunesca como marcou a maior parte da geração pós-Osamu Tezuka. Seu grande mérito é saber retratar o grotesco e o ridículo, imprimindo grande carga emocional aos sofrimentos relatados. A riqueza nas caracterizações e nas expressões corporais e faciais compensam sua deficiência com anatomia, perceptível na dificuldade dele em desenhar garotas bonitas quando o momento exige. Parte da obra é autobiográfica, pois o escritor, durante um tempo de sua vida, trabalhou em uma clínica de cuidados com idosos. Lá, conviveu com o ser mais repugnante que já conhecera em sua vida, um tipo frustrado que foi tanto objeto de estudo quanto o estopim para ele largar aquele trabalho.

O mangá começa com Sakaguchi, cujo semblante pesado também ilustra a quarta capa da edição, numa clara demonstração de que ele foi a grande força motriz que motivou a obra. Além dele, diversos outros tipos vão sendo apresentados. Um deles, Miyata, é aquele raro virgem que atingiu a maturidade de se autoanalisar e rir de sua situação, conseguindo superar limitações e ter, ao menos, uma vida social e amizades. Esse foi um dos que aceitou expor sua identidade ao público, indo até a eventos para contar sua história. Miyata é um ativista da chamada extrema-direita japonesa, uma caricatura que se resume a praticar xenofobia e racismo, especialmente contra coreanos, sem discutir economia, papel do Estado, valores religiosos ou outras questões envolvendo os embates "direita x esquerda" no ocidente. Como era de se esperar, otakus estão entre essa categoria de pessoas fechadas, e o autor até mesmo classifica com precisão os que são voltados a mangá e animê e aqueles que são fanáticos por cantoras idols. [Nota: No Japão, "otaku" não é sinônimo de fã de mangá ou animê, mas sim de pessoas obcecadas por um hobby e sem vida social.] O virgem Masui, que dedica sua vida ao grupo feminino AKB48, conta que compra muitos CDs repetidos só para conseguir cupons que dão direito a cumprimentar por alguns segundos sua integrante favorita em eventos específicos. Tal situação, que aumenta a níveis absurdos a venda de CDs dessa banda e similares, é apenas uma das estratégias que tira proveito da situação de carência afetiva e fetiche sexual sobre essas meninas. Dois dos tipos apresentados não são tecnicamente virgens. Um deles, Miyamoto, habituou-se a recorrer a prostitutas por ser totalmente incapaz de conseguir uma namorada. O outro, Hiroshi, refugiou-se no submundo do sexo casual gay, numa forma de satisfazer sua libido após ser rejeitado repetidamente por mulheres. Este último, inclusive, é apresentado como tendo se tornado homossexual em busca de uma fuga emocional em um meio pouco exigente, mas sem nunca perder a esperança de encontrar uma boa garota para constituir família. A forma como o caso foi apresentado, inclusive, só não atraiu a ira dos justiceiros sociais e militantes gays por que o trabalho não possui grande repercussão fora do nicho de leitores de quadrinhos adultos.


O autor faz diversas considerações sobre as condições que levam ao número enorme de virgens de meia-idade no Japão, que tem levado o país a níveis de fertilidade alarmantes, que podem condenar a etnia japonesa à extinção em um futuro não tão distante.


Perda de valores familiares, individualismo e outros fatores são citados nas divagações do autor, que deixa claro que sua intenção foi apresentar o problema, e não buscar soluções ou interpretações. E outro ponto de destaque é a forma direta e sincera com a qual aborda o enorme problema do day care de idosos no Japão, um setor que, segundo ele, emprega párias da sociedade, pessoas de baixíssima qualificação e ex-detentos, gerando um atendimento desumano e degradante aos velhinhos que precisam de ajuda.


Em Virgem Depois Dos 30, o leitor toma contato com uma realidade diferente do otimismo de um mangá para adolescentes. Os autores podem até ter carregado um pouco nas caracterizações, mas o recado foi dado e ajudou a chamar a atenção para um crescente problema social japonês que, infelizmente, ainda está longe de uma solução.


Mangá-Documentário: Virgem Depois Dos 30

Título original: Manga Rupo Chuunen Dootei ~ 漫画ルポ中年童貞 (2014)

Criação e roteiro: Atsuhiko Nakamura

Arte: Bargain Sakuraichi

Formato: 15,4 x 21,8 cm, com 244 páginas

Total: Volume único

Lançamento no Brasil: Editora Pipoca e Nanquim (2019)

Classificação indicativa: 18 anos

- Também disponível em formato digital para Kindle.


Alexandre Nagado


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