• Ale Nagado

Sobre a Importância dos Editores

Algumas considerações sobre o trabalho de um editor na área de quadrinhos ou mangá.

SPY x FAMILY: Uma obra que não existiria se não fosse seu editor.

O editor de quadrinhos - seja de mangá, comics, ou o estilo que for - é, por definição, o profissional responsável pela coordenação dos trabalhos em uma revista ou publicação de qualquer tipo, periódica ou não. Cabe ao editor responder pelo conceito e conteúdo do título, bem como acompanhar os processos criativos e estabelecer um diálogo entre os profissionais e o público. No entanto, pelas características do mercado de quadrinhos brasileiro, o editor aqui tem uma atribuição um tanto quanto diferente de suas contrapartes no Japão, EUA, Europa e em qualquer mercado com sólida tradição em publicar autores locais.


Enquanto japoneses, americanos, franceses, italianos, ingleses e outros povos sempre tiveram a produção local como base de seu mercado editorial de quadrinhos, o Brasil seguiu por outro caminho. Desde a década de 1920, trabalhos de sucesso nos EUA eram trazidos para o Brasil via contratos de licenciamento.


Licenciar obras prontas, já com bagagem de sucesso em seu país de origem, sempre foi economicamente mais viável e menos arriscado para as editoras brasileiras. Afinal, esse tipo de licenciamento envolve pagamento de royalties, ou porcentagens de venda (algumas vezes com adiantamento), o que é sempre menos arriscado que pagar preços que permitam aos autores se dedicar integralmente ao trabalho de quadrinhos e conseguir pagar suas contas mês a mês.

Mangá: Um mercado gigante, baseado em produção local.

A editora vai pagar royalties proporcionais depois que o trabalho vender, e não antes, que seria o certo a se fazer quando o trabalho tem sua produção encomendada. Lembrando que, nos países que produzem, os autores recebem por página ao entregarem suas histórias, a fim de garantir seus rendimentos mensais. No caso do Japão, os autores recebem por página um determinado valor, e depois que as histórias que saem em revistas mix são compiladas em títulos-solo, eles recebem o pagamento de direitos autorais.


Quando havia um mercado de quadrinhos com alguma consistência no Brasil, existiam até tabelas de preços para as editoras pagarem seus colaboradores. Nos dias de hoje, geralmente a coisa funciona através de porcentagens de venda de uma obra já completa, e o autor raramente consegue se dedicar integralmente ao trabalho por muito tempo, exceto se morar com os pais e não tiver muitas responsabilidades financeiras.


Nos países com forte tradição local de produção, os publishers (no caso, os donos de editoras) compreenderam que era preciso investir nos talentos locais para conseguir formar bons e lucrativos autores, que se dedicassem integralmente à sua arte, e não apenas como hobby. Tal investimento é de longo prazo, e as editoras brasileiras quase sempre trabalham com pouca margem de manobra.


Os editores brasileiros do passado podem ter trazido ao conhecimento do leitor os grandes clássicos mundiais dos quadrinhos, como Príncipe Valente, Flash Gordon, Tarzan, Batman, The Spirit, Recruta Zero e uma infinidade de personagens que atravessaram eras. Porém, isso custou caro, na medida em que autores iniciantes não conseguiam competir com o volume de produções de alto nível que já chegava pronto. Como resultado, não conseguiam ficar tempo suficiente no mercado para amadurecer seu trabalho, com poucas exceções. Esses antigos editores se ocupavam de selecionar e adaptar trabalhos prontos, o que é diferente de coordenar um trabalho e dar-lhe uma identidade própria.

Stan Lee: Antes de um grande editor, um grande criador.

Mais que um criador e roteirista, o lendário Stan Lee (1922~2018) foi também um brilhante editor, que coordenou os trabalhos que deram origem ao Universo Marvel, com tamanha coesão e eficiência, que serviu de modelo para o moderno Universo Cinematográfico Marvel. Stan Lee escrevia editoriais dinâmicos, com bom humor e sabedoria, fazendo seus leitores se sentirem parte de uma grande fraternidade de pessoas descoladas e apaixonadas por grandes histórias. O mercado americano gerou outros editores que deixaram suas marcas, como Roy Thomas e Jim Shooter, dois sucessores de Stan Lee. No Japão, a figura do editor é igualmente importante, sendo a grande força por trás algumas criações de sucesso. O grande fenômeno deste ano, SPY x FAMILY, talvez nem tivesse existido se não fosse a figura do editor do mangá original. O autor Tatsuya Endo já vinha de uma carreira de quase uma década sem conseguir emplacar uma obra consistente, mas isso mudou graças ao seu editor.


Por insistência do amigo e editor Shihei Lin, ele juntou elementos de outras histórias que havia produzido e foi formatando os personagens de SPY x FAMILY até se chegar ao núcleo familiar que conquistou o mundo, especialmente após a versão animê ser exibida. Se dependesse de Tatsuya Endo, não teríamos a garotinha Anya, a personagem que arrebatou o coração de milhões de fãs.

I"s, de Masakazu Katsura.

O autor Masakazu Katsura, entusiasta de super-heróis (tanto de tokusatsu quanto de comics) queria criar aventuras cheias de ação, mas por insistência do editor da Shonen Jump, investiu seu tempo em romances shonen com drama, comédia e sensualidade, o que gerou os sucessos Video Girl Ai e I"s. As relações entre autores e editores também podem ser tensas, geralmente quando há muita divergência criativa ou - o que é mais comum - quando o autor tem dificuldade de cumprir os apertados e rigorosos prazos de entrega.


No Brasil, uma das poucas exceções entre os editores foi o editor Minami Keizi (1945~2009), que entre as décadas de 1960 e 70 produziu muitas revistas em quadrinhos, atuando próximo dos autores para formatar propostas e estilos. Na década de 1980, Toninho Lima da Circo Editorial lidava com grandes nomes daquela época, como Angeli, Laerte e Glauco, entregando revistas de quadrinhos de humor que foram sucesso de público e crítica. Na versão nacional da revista MAD, o excelente Ota (1954~2021) mesclava material da matriz americana com trabalhos nacionais que tinham o mesmo nível, integrando-os em uma publicação que marcou época.


Em várias editoras pequenas que publicaram material nacional, especialmente as revistas estilo mix de vários autores com histórias fechadas, o editor era alguém encarregado de selecionar material que julgasse adequando ao tema da publicação, raramente interferindo no trabalho dos autores. Porém, extrair o melhor de cada autor dentro de uma proposta sólida, coerente e viável do ponto de vista comercial, é trabalho do editor. É algo muito além de dizer "gostei" ou "não gostei". Assim como um produtor na área musical, o editor é o líder da equipe criativa, quer os autores gostem ou não.


Nos quadrinhos da Turma da Mônica, desde o começo, foi a supervisão do criador que deu unidade à linguagem do estúdio, tanto em roteiro quanto em arte. Como seu estúdio sempre enviou material pronto para as editoras por onde passou, o próprio Mauricio era o editor de fato. Mas, no geral, os casos de editores com visão artística, comercial e conceitual, são muito poucos.

Holy Avenger, de Marcelo Cassaro e Erica Awano.

Reflexo da maneira como o mercado de quadrinhos no Brasil se formou e se solidificou, nunca houve um bom número de editores capazes de fazer um trabalho como o de editores japoneses, europeus e americanos. Um mercado que eternamente vive de traduzir material estrangeiro e que criou ranço contra material nacional, o qual raramente é bem remunerado. Sobre isso, é fácil falar que brasileiro não tem capacidade de criar um "Naruto" ou um "Demon Slayer" sendo que tais obras são fruto de um mercado extremamente produtivo, que sempre fomentou a produção local, gerando uma vasta tradição de excelência e alta competitividade entre autores.


A questão envolve problemas históricos, tanto do mercado editorial, quanto da própria produção cultural do país, e isso não deve mudar. Vez por outra, algum trabalho nacional consegue furar a bolha, como Holy Avenger de Marcelo Cassaro (que é tanto um editor quanto um artista) e Erica Awano, mas exceções não formam um mercado.


Em termos de atuação como editor nos moldes estrangeiros, o gerente de conteúdo da editora JBC, Marcelo Del Greco, depois de anos como editor de materiais traduzidos do japonês, atuou como editor do mangá nacional O Regresso de Jaspion. Neste caso, ele agiu como um editor nos moldes clássicos e acompanhou todo o processo criativo, atuando de maneira decisiva em determinados momentos para que se chegasse ao produto final.


Com poucas e honrosas exceções, os editores de quadrinhos no Brasil nunca formaram uma tradição consistente como partícipes do processo criativo.


Nos maiores mercados de quadrinhos autorais do mundo, o editor é aquele que ajuda extrair o máximo de potencial de uma obra e de seus artistas. Se um mercado de quadrinhos produz tantos sucessos como no Japão (que superou de longe os EUA), pode-se ver que não basta somente incentivar novos talentos, é preciso forjar bons editores para lapidar cada obra.



Leia também:

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