• Ale Nagado

30 de Janeiro: Dia do Quadrinho Nacional

Uma data para celebrar os quadrinhos produzidos no Brasil e seus autores. E debater os problemas inerentes a esse ramo da cultura pop.

Ilustração de Riojin
Suando para produzir HQ no Brasil! Arte: Riojin.

O penúltimo dia do mês de janeiro é dedicado às histórias em quadrinhos nacionais, seja de qual estilo forem. A data foi escolhida porque, em 30 de janeiro de 1869, foi publicada em nosso país a pioneira história “As aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma viagem à corte”, de autoria de Angelo Agostini (1843~1910), artista gráfico nascido na Itália e radicado no Brasil.


Graças a esse marco editorial, a data começou a ser comemorada em 1985 como o “Dia do Quadrinho Nacional” pela AQC SP – Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas de SP [*].

Além disso, o nome de Angelo Agostini batizou a premiação anual da AQC, que homenageia os destaques da produção brasileira vigente e homenageia profissionais do passado, na categoria Mestres do Quadrinho Nacional. A entidade ainda tem um troféu para incentivadores da HQ nacional, que leva o nome de Jayme Cortez (1926~1987), um dos maiores autores de quadrinhos que o país já teve.

Nhô Quim, de Angelo Agostini.

Uma confusão bastante comum na mídia - especialmente a mainstream - é confundir "Dia do Quadrinho Nacional" com "Dia Nacional dos Quadrinhos". Assim, é comum vermos reportagens sobre o dia 30 de janeiro mostrando imagens do Batman, Naruto ou Homem-Aranha. A dificuldade na interpretação da data é algo que incomoda os que conhecem o assunto, mas o mesmo erro se repete anualmente, não importando o quanto se tente explicar. E apesar do grande público ignorar, o Brasil tem muitas tradições no campo dos quadrinhos.


O Brasil foi o primeiro país a fazer mangá depois do Japão, muito antes que se soubesse aqui o nome pelo qual os quadrinhos eram conhecidos por lá. Antes mesmo da exibição de Speed Racer e outros animês, que popularizaram o traço nipônico, um grupo de artistas começou a mostrar influências dos quadrinhos japoneses, graças ao trabalho do pioneiro editor e autor Minami Keizi (1945~2008), que começou na Pan Juvenil e depois fez história ao ajudar a fundar a editora EDREL. Entre os pioneiros ao lado de Minami, despontaram talentos como Cláudio Seto (1944~2008) e Paulo Fukue.


O mangá brasileiro produziu muitos autores com trabalhos de alto nível, como Neide Harue, Erica Awano, Marcelo Cassaro, Daniel HDR, Denise Akemi, Arthur Garcia, Rodrigo de Goes (1967~2018), Erica Horita, Kaji Pato, Valu Vasconcelos e tantos outros.

Gibis Tupãzinho e Ídolo Juvenil
Tupãzinho e Ídolo Juvenil: Mangá brasileiro na década de 1960.

Grande consumidor de quadrinhos de super-heróis americanos, o Brasil também tem uma extensa lista de personagens que seguem mais ou menos a estética americana, com uma grande variedade de abordagens, desde clássicos como Raio Negro, Judoka, Homem-Lua, Fikom e Pabeyma, até obras mais modernas como Pulsar, UFO Team, Doutrinador, Meteoro e muitos outros.


Apesar de sua longa história repleta de bons trabalhos, os quadrinhos no Brasil nunca se firmaram como alternativa profissional forte para seus autores. Desde seus primórdios, os editores brasileiros sempre buscaram dar prioridade a material que viesse pronto do exterior, de preferência já com sucesso acumulado. Enquanto nos EUA, Japão e Europa os editores são produtores que fomentam a criação de trabalhos fortes junto aos autores, no Brasil a grande maioria dos editores se formou traduzindo e adaptando obras estrangeiras prontas, sem interferência em sua concepção.


A publicação de um título estrangeiro que já tenha sido testado em seu mercado traz alguma segurança, ainda mais se o personagem é conhecido em outras mídias. Além disso, normalmente o pagamento envolve royalties, valores recolhidos depois que o produto é vendido. No caso de encomendar produção inédita, é preciso pagar um valor que permita ao autor se dedicar. E aí nunca se chega a um valor satisfatório e o autor que aceita precisa trabalhar com outra coisa para se manter, caso não more ainda com os pais.


O Brasil teve seus momentos de um mercado de trabalho aceitável para seus autores, como nas décadas de 1960 a 90, mas sempre com muitas oscilações. O quadrinho infantil brasileiro - independente da Turma da Mônica - já foi uma potência nas bancas, bem como o terror e o humor adulto, mas foram fases passageiras, infelizmente.

A década de 1980 viu a explosão do quadrinho adulto com as graphic novels e a HQ nacional invadiu o filão, oferecendo ao público Chiclete Com Banana, Geraldão, Circo, Níquel Náusea, Piratas do Tietê e outras pérolas do humor. Infelizmente, a onda passou, bem como todas que marcaram o oscilante mercado editorial brasileiro. Mesmo o país tendo gerado talentos do humor gráfico do nível de Angeli, Laerte, Glauco (1957~2010), Fernando Gonsalez, Marcio Baraldi, Cláudio de Oliveira, Tiburcio, Spacca e muitos outros.


Como a situação sempre foi difícil em termos de equilíbrio financeiro, pouca coisa vingou em nosso país. Com a honrosa exceção de Mauricio de Sousa, que sempre foi tão ou mais talentoso como empresário do que como quadrinista, quem conseguiu algum sucesso não conseguiu manter por muito tempo. A saída, para muitos, foi produzir para o exterior.


Ao longo dos anos, o Brasil se tornou fornecedor de desenhistas que trabalhavam para editoras americanas, como a Marvel e DC Comics. Entre esses autores, nomes como Roger Cruz, Ivan Reis, Cariello, Mike Deodato, Joe Bennett, Klebs Jr (1966~2021) e Luke Ross publicaram muitos trabalhos elogiados. Eles obviamente sempre mereceram o reconhecimento como talentosos autores nacionais, apesar de não fazerem quadrinhos nacionais quando ilustram roteiros para as grandes editoras americanas. São brasileiros que produzem quadrinhos, ponto.


No campo do mangá, alguns poucos autores conseguiram publicar no Japão, com destaque para Thiago Furukawa Lucas, criador de No Game, No Life sob o pseudônimo de Yuu Kamiya. Além disso, o concurso internacional Silent Manga Audition, da empresa COAMIX, já premiou e deu menções honrosas a muitos autores brasileiros, como Ichirou, Eudetenis, Riojin, Heitor Amatsu e outros.


Em termos de produção autoral nacional, a salvação veio através de plataformas de financiamento coletivo, o que tem viabilizado muitos projetos que dificilmente poderiam ser bancados por alguma editora no atual cenário editorial. As tiragens ficaram muito pequenas, praticamente on demand, o que encareceu muito a HQ como produto, e isso atingiu os quadrinhos como um todo (e não só no Brasil).


Com gibis cada vez mais caros, cada vez menos pessoas compram. E quanto menos pessoas compram, mais caro as editoras precisam cobrar para equilibrar suas contas. Isso falando apenas em termos de produção por amor à arte, não como alternativa de sustento profissional.

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Os problemas para publicar e se manter em atividade fazendo quadrinhos no Brasil são muitos e vêm de longa data. Aqueles que dizem que o mercado de quadrinhos tem sido fantástico nos últimos anos, na verdade se referem à qualidade dos trabalhos, que felizmente têm sido viabilizados pelos já citados sites de crowdfunding. Porém, fora da MSP (Mauricio de Sousa Produções), a HQ nacional prossegue, para a maioria dos autores, algo difícil como opção profissional.


No passado, já foram tentadas leis de cotas para quadrinhos nacionais, o que iria prejudicar muito editoras pequenas. É possível, via força coercitiva de uma lei carregada de autoritarismo estatal, obrigar editoras a publicar autores nacionais e até a pagar preços bons, mas é impossível obrigar o público a comprar. Aí, a iniciativa não se sustenta. Um tipo de incentivo à produção nacional, entretanto, seria algo benéfico a todos. E, afinal, todo país busca defender seus interesses e os de seus trabalhadores, dentro de um clima de liberdade de mercado.


Talvez isenções fiscais sobre papel (sempre um item caro) para imprimir material nacional ou algum tipo de apoio fosse interessante, visto que o governo sempre interfere em qualquer empreendimento, via cobrança de impostos e leis regulatórias.


Entre soluções políticas e empreitadas corajosas e incansáveis, muitos autores vão abrindo espaço mesmo lutando contra seus pares e sendo largamente ignorados pela crítica por motivos ideológicos, como é o caso dos projetos de Luciano Cunha (e sua editora, a Super Prumo), "cancelado" pela imprensa especializada por suas posições de direita. Mas, em maior ou menor grau, todo autor brasileiro precisa lutar muito e ainda enfrentar a indiferença da maioria dos leitores, sempre atrás de obras famosas e comentadas.

Por tudo que foi aqui abordado e pela incansável disposição de muitos autores em seguir produzindo, é preciso valorizar e, principalmente, fazer as pessoas entenderem o sentido de um Dia do Quadrinho Nacional: Uma celebração dos quadrinhos nacionais e seus autores. Os autores, aliás, são os verdadeiros super-heróis de nossa HQ.


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[Nota: O termo gramaticalmente mais aceito é “quadrinista”, mas pelo menos um grande dicionário, o Aurélio, registra “quadrinhista” como sendo também correto, não pelo etimologia da palavra, mas pelo seu uso por uma entidade de classe, no caso a AQC. A questão foi levada e acolhida pela equipe do Aurélio através de mensagem deste que vos escreve.]


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