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Crise no mercado editorial: Uma dose de realidade

Atualizado: 14 de jul.

Algumas considerações sobre uma recente pesquisa que analisou o mercado editorial brasileiro.

Cada vez menos leitores no Brasil. (Foto: Olhar Digital)
Cada vez menos leitores no Brasil. (Foto: Olhar Digital)

Recentemente, assisti a um vídeo no Instagram no qual um criador de conteúdo chamado Tiago Souza comenta sobre uma recente pesquisa da Câmara Brasileira do Livro, que aponta que o mercado editorial encolheu 44% nos últimos 20 anos. E isso em um universo que inclui livros e quadrinhos de todo tipo. Tal pesquisa pode parecer contraditória frente ao grande movimento visto na recente Bienal do Livro do Rio 2025 que, por maior que tenha sido, representa os interesses de um nicho específico e relativamente pequeno dentro do tamanho da população do Brasil. Milhares de jovens foram à Bienal, mas quantos se recusariam ir de todo jeito, a menos que fosse para ver alguma celebridade?


Que o brasileiro lê cada vez menos é um dado bastante óbvio para qualquer um que veja o mundo ao seu redor, mas a pesquisa ajuda a dimensionar melhor o tamanho do problema. O mercado de livros digitais realmente melhorou de modo significativo, mas ele responde por uma parcela muito pequena do mercado editorial total, somente 9%.


Um resumo bem ponderado da situação é dado pelo autor Tiago Souza em seu vídeo:


A explanação é bastante interessante, mas sempre é bom consultar as fontes primárias, no caso a citada pesquisa da CBL. Confira:



Esse derretimento do mercado editorial vem acontecendo há mais tempo, e vale recordar um movimento que aconteceu em 2000. Quando a Editora Abril parou com os gibis em formatinho de super-heróis e começou a investir no chamado formato grande Premium (maior, mais bonito, luxuoso e caro), já era um sinal de que menos pessoas iriam responder pela manutenção dos níveis de faturamento da editoria, já que os gibis baratinhos estavam vendendo cada vez menos. Para se ter uma ideia sobre tiragens e vendas na década de 1990, o gibi Street Fighter da Editora Escala tinha uma tiragem de 30 mil exemplares e distribuição nacional, vendendo quase tudo. Quando as vendas ficaram abaixo de 10 mil, a editora perdeu o interesse em prosseguir, pois não compensaria mais, já que contrato estava vinculado a uma tiragem fixa. Naquela época, a Mônica vendia mais de 300 mil exemplares. A revista HERÓI, fenômeno editorial 30 anos atrás, teve tiragem de 100 mil exemplares para seu número um, que esgotou rapidamente e foi reimpresso algumas vezes. Todas as pessoas liam muito naquela época, entre revistas e livros.


Hoje em dia, quadrinhos com tiragens inferiores a 3 mil exemplares (ou muito menos que isso) ganham prêmios da crítica especializada e são aclamados por criadores de conteúdo como grandes sucessos. Os produtos estão melhores tecnicamente (impressão, acabamento), mas livros e especialmente quadrinhos se tornaram produtos de consumo mais elitizados.


Essa lógica, de investir em produtos mais sofisticados (e caros, não esqueça deste detalhe) para compensar baixas vendas, vai criando um afunilamento cada vez maior. Cada vez mais editoras vão tentando oferecer produtos cada vez melhores - e mais caros - enquanto as pessoas, em geral, têm cada vez menos poder aquisitivo e precisam escolher cada vez mais onde gastar seu suado dinheirinho. É um mito acreditar que há espaço para todo mundo seguir publicando. Espaço até existe, mas ver as editoras com impressão on demand indica que certos produtos são nichados demais para qualquer editora arriscar sequer uma tiragem mínima de 100 exemplares. Conhecendo bem seu nicho, que é o de HQ nacional, a Editora Criativo oferece um catálogo gigantesco de títulos, mas com tiragens limitadas e realistas. Muitas editoras pequenas também só vendem em sua loja virtual própria, reduzindo comissões para grandes redes de venda, como a Amazon.


Muitas pessoas vivem reclamando do preço de livros, e uma coisa que barateia o custo individual de um livro é a tiragem. Quanto maior a tiragem, menor o custo proporcional de cada unidade impressa. No entanto, com baixas perspectivas de venda, a prudência pede tiragens mais modestas (e proporcionalmente mais caras) hoje do que se praticavam há 20 ou 30 anos. Encalhe sempre é sinônimo de prejuízo.


Isso, certamente, não impacta somente as editoras estabelecidas, mas também os autores. Tradicionalmente, as editoras oferecem entre 5 e 10% do preço de capa ao autor, conforme ele tenha nome no mercado. Algumas editoras oferecem porcentagens bem maiores (20% ou mais), mas não em cima do preço de capa, mas sobre o lucro líquido. Ou seja, descontando valores gastos com papel, gráfica, logística, distribuição e a comissão da livraria. Na prática, é um cálculo complexo e sobre o qual o autor raramente consegue ter uma transparência completa. Outras, ainda, oferecem acordos específicos conforme suas condições. No modelo mais consolidado de negócios, se um livro custa 50 reais, somente 5 reais vão para o bolso do autor. E isso não ocorre imediatamente, claro. As editoras estipulam em contrato qual a periodicidade da prestação de contas, podendo ser mensal, semestral ou anual, podendo ou não envolver um adiantamento a ser descontado depois.


Com tudo isso, quase ninguém ganha dinheiro de verdade escrevendo livros (exceto celebridades), mas ele pode ser uma porta de entrada para outros projetos profissionais, na medida em que consolida autoridade sobre um assunto. Publicar livros tendo em vista palestras remuneradas no futuro acabou se tornando um investimento para muita gente, pois a questão básica volta ao ponto inicial: livros estão vendendo cada vez menos. E nem vamos falar aqui do fenômeno editorial dos livros de colorir para adultos. Que é bom que existam enquanto passatempo saudável, mas é preocupante que tenham tanto peso de mercado como se descobriu. Tenho minhas dúvidas se comprar livros de colorir deixam o adulto que não lê perto de fazer a transição para livros de texto, mas não sou capacitado para opinar sobre isso. Voltemos ao tema mercadológico.


Financiamento coletivo e editoras que cobram para publicar seu livro são alternativas que realmente democratizaram a possibilidade de qualquer um ter seu trabalho sendo publicado. Porém, isso pouco interfere em termos de mercado editorial, pois este pressupõe relações comerciais objetivando lucro aos autores, não apenas a publicação em si. Ainda que isso possa ser um trampolim para outras realizações profissionais. E sim, existem aqueles que, com habilidade, talento, boas conexões e planejamento, conseguiram um bom faturamento com projetos independentes, sem editora. Tais casos são mais exceção do que regra, em um mercado que luta para sobreviver.

Loja da rede Livraria da Vila. (Foto: SP City)
Loja da rede Livraria da Vila. (Foto: SP City)

Tudo isso passa pelo afastamento das pessoas do hábito da leitura em geral. Por décadas, o sistema de ensino brasileiro tem empurrado para seus jovens a obrigatoriedade de leituras clássicas, que são importantes, mas acabam sendo enfadonhas para a maioria. Este que vos escreve teve a sorte de ter descoberto, com seus professores durante a adolescência, aventuras incríveis da Coleção Vaga-Lume e as crônicas da série Para Gostar de Ler. E antes disso, na infância, fui incentivado pelos pais a ler muitos quadrinhos e os manuais sobre temas variados que a Abril lançava, vários deles com personagens Disney. Mas a maioria das pessoas pegou mesmo foi irritação com a leitura, ainda mais em gerações posteriores à minha.


O grande escritor e educador Pierluiggi Piazzi (1943~2015) dizia que a melhor coisa para incentivar a leitura é estimular o jovem a ler sobre o que ele se interessa. E que, se uma leitura está enfadonha, tudo bem deixar o livro de lado e procurar outra coisa para ler. A ideia era sempre oferecer aos jovens uma leitura interessante e divertida.


Atualmente, não é apenas a leitura de livros que caiu, mas a leitura em geral. Blogs como este perderam muito de sua relevância, e praticamente criador de conteúdo que é levado em conta pela maioria é só aquele que tem canal no YouTube.


O poder aquisitivo do povo vem caindo ao longo do tempo, e a oferta de entretenimento "grátis" na internet é irresistível. Incentivar as pessoas a ler é difícil, o cidadão médio não curte mesmo, pois trabalha muito e nas horas de folga quer desligar o cérebro vendo vídeos ou jogando. Essa questão cultural, de não ter apreço pela leitura, é algo irreversível, pois as pessoas agora se informam pelo TikTok e pelo Instagram, em busca de algo mais ligeiro e superficial.


Desde sempre, editoras ocultam números de venda, mas é sabido que mesmo títulos consagrados estão muito aquém do que se esperaria deles. No cenário de crise econômica, restrição da liberdade de expressão, censura, perseguição e insegurança jurídica em que vivemos, há esperança para um mercado editorial forte e independente? A curto prazo, não, mas isso não impede que cada um tente ser uma boa influência em sua família ou círculo social. Não espere políticas públicas de incentivo à leitura, pois estas jamais levarão em conta o que é preciso para que as pessoas gostem de ler. No caso de ações de governos, a chance é que apareçam mais listas e incentivos a obras relacionadas ao que agentes políticos acreditam que as pessoas devam ler. E a leitura, sem ter caráter lúdico, não consegue se consolidar como um hábito prazeroso e uma fonte de conhecimento.


Uma reflexão extra: MANGÁS: TEM ESPAÇO PARA MAIS NO BRASIL?


A frase acima foi tema de um debate que rolou no recente Anime Friends, dias atrás. Não assisti, mas me permito tecer um comentário sobre o tema em si.


Sem querer soar um nacionalista estúpido, eu ficaria mais feliz em ver pessoas da área editorial discutindo sobre como melhorar as condições de trabalho (leia-se: valores melhores e mais regulares) para autores nacionais que não vivem de publicar no exterior. Sim, porque publicar HQ no Brasil é uma coisa, viver disso é outra muito diferente. Conseguir publicar uma HQ via financiamento coletivo nem sempre rende o suficiente para manter o autor, que precisa trabalhar com outras coisas, às vezes até fora da área criativa. E a questão dos royalties já foi explicada neste post.


O mangá, que eu adoro e ajudei a promover por muitos anos, já responde pela maior parte do mercado de quadrinhos no Brasil. Parece muito, mas é pouco dentro do mercado editorial como um todo.


Antes de melhorar a promoção do trabalho de autores estrangeiros, seria bom fazer como países de referência editorial sempre fizeram: valorizar os autores locais e lhes dar condições de desenvolver seu talento e suas propostas. Para isso, a editora teria que investir e ajudar no desenvolvimento de autores, e não apenas selecionar e traduzir material consagrado lá fora. O mercado de HQ, no Brasil, começou publicando sucessos que vinham do exterior e segue assim até hoje, sem perspectivas de mudança. Afinal, a esta altura, o que tem contado é o pragmatismo de mercado, sem possibilidade de investimento para futuras gerações.

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