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70 anos de mangá BR

Atualizado: há 25 minutos

Um ano especial para os quadrinhos nacionais feitos sob influência japonesa.


Mangá BR: Amarelo Seletivo, Megasonicos, Aquarella, Rei da Lata, Sr. Bra, Holy Avenger, Ginga, Ultraboy, Oxente.

Na longa trajetória dos quadrinhos produzidos no Brasil, que remonta aos pioneiros Sebastien Auguste Sisson (em 1855), Henrique Fleiuss (1860) e Angelo Agostini (1869), no século XIX, o mangá feito em nosso país tem um lugar de destaque. Os citados pioneiros da HQ no Brasil eram todos europeus que vieram viver no Brasil, e com o mangá aconteceu algo parecido, conforme veremos mais à frente.


País fruto de miscigenação de muitos povos, o Brasil também reflete essa característica em seus quadrinhos, que possuem influências variadas, não existindo uma identidade visual e narrativa única que possa ser chamada de "genuíno quadrinho brasileiro". O consagrado estilo infantil desenvolvido pelos Estúdios Mauricio de Sousa começou derivado do traço de Marge, da Luluzinha.


A influência dos quadrinhos americanos de super-heróis Marvel e DC Comics foi enorme, sendo a grande inspiração para jovens desenhistas por décadas. Nos anos 90, muitos produziram trabalhos consagrados para essas e outras editoras americanas. No início do século XXI, as influências foram mudando.


Há mais de 20 anos, os quadrinhos japoneses têm sido a influência majoritária entre novos autores nacionais, a ponto de ser possível dizer que existe sim um mangá BR, verdadeiramente brasileiro. Consta que o Brasil, inclusive, foi o primeiro país a produzir no estilo mangá, depois do Japão, obviamente.


Entre autores que emulam o máximo de técnicas visuais e narrativas do mangá, e outros que misturam influências variadas, o toque nipônico nos quadrinhos brasileiros hoje é evidente, mas demorou muitos anos para ser percebido e começar a influenciar autores.

Consta que a primeira história em estilo mangá publicada no país foi a tira Sr. Bra da Colônia, veiculada regularmente no extinto jornal São Paulo Shimbun, entre 1956 e 1958. O autor era Ypê (ou Yppe) Nakashima (1926~1974), um talentoso imigrante japonês que seguia o estilo das tirinhas de jornal de seu país na época, chamadas de “yon-koma” ("quatro quadrinhos"), que eram tiras verticais de humor, muitas vezes sem texto.


Sr. Bra tinha o visual seguindo o estilo do cartum japonês daquele período, apesar de não lembrar os traços do moderno mangá, estabelecido por Osamu Tezuka (1928~1989) ainda na década de 1950. Mas como o termo mangá originalmente se referia também a charges, cartuns e caricaturas, é perfeitamente correto considerar o Sr. Bra como um marco inicial do mangá nacional. Mas o São Paulo Shimbun, voltado à colônia japonesa, não era muito notado fora dela, o que faz de Sr. Bra um marco quase desconhecido, resgatado graças ao trabalho de pesquisadores como o desenhista Luigi Rocco, com seu blog Tiras Memory. [Nota: a tira acima, extraída do Tiras Memory, foi feita originalmente na vertical, mas adaptada para horizontal por questão de espaço.]

Sr. Bra na versão atualizada por Ypê Nakashima em 1973.
Sr. Bra na versão atualizada por Ypê Nakashima em 1973.

Nascido em Hiroshima em 1926 como Ippei Nakashima, o artista veio ao Brasil com sua esposa e seu filho Itsuo, o único de três a sobreviver. Aqui, ele assumiu o nome artístico de Ypê Nakashima. Como animador, produziu o aclamado Piconzé, lançado em 1973 e registrado como o terceiro longa-metragem de animação feito no Brasil. Seu filho Itsuo também faria carreira como desenhista e animador.

Já em 1966, a editora Pan Juvenil, tendo à frente o editor e autor Minami Keizi (1945~2009), publicaria o Álbum Encantado. Para esse trabalho, Minami passou as referências e orientou sua equipe a se aproximar do estilo de mangá shojo em algumas páginas.


Entre quadrinhos, contos ilustrados e passatempos no estilo de clássicos infantis, Minami Keizi e os desenhistas Crispim, Vitor Forde (aka "Luis Sátiro"), Fabiano Dias e Toninho Duarte fizeram um verdadeiro marco, por terem incluído na revista desenhos inspirados em mangá.


Álbum Encantado (1966), que reuniu estilos variados, incluindo mangá.
Álbum Encantado (1966), que reuniu estilos variados, incluindo mangá.

Também em 1966, a Pan Juvenil havia lançado Tupãzinho, o Guri Atômico, que apesar de ter sido inspirado no Astro Boy de Osamu Tezuka, acabaria tendo uma identidade visual próxima das HQs americanas da Harvey Comics, que tinha personagens como Gasparzinho e Riquinho. Entretanto, a edição de estreia do Tupãzinho trouxe uma HQ curta chamada "A História do Fogo", assinada pelo criador Minami Keizi, que é puro mangá de humor. Um verdadeiro marco histórico.


No final dos anos Pan Juvenil se transformou na EDREL - Editora de Livros e Revistas e iria investir forte nos quadrinhos nacionais, abrindo espaço para experimentações com mangá.


Capa de Tupãzinho 1 (1966), junto com uma página de "A História do Fogo", primeira HQ em estilo mangá feita por um brasileiro.
Capa de Tupãzinho 1 (1966), junto com uma página de "A História do Fogo", primeira HQ em estilo mangá feita por um brasileiro.

Outro autor da EDREL a se inspirar nos quadrinhos japoneses era Cláudio Seto (1944~2008), que publicaria diversas histórias em estilo mangá, como nas revistas O Ídolo Juvenil e Ninja - O Samurai Mágico e O Samurai, todas lançadas em 1968. Além disso, a editora também publicou no início da década de 1970 trabalhos experimentais de Paulo Fukue e Lincoln Ishida inspirados em mangá.


Em 1970, a EDREL inovou ao lançar o livro A Técnica Universal das Histórias em Quadrinhos, de Fernando Ikoma, dando dicas para o autor iniciante. O volume, que foi um grande sucesso, trouxe também um capítulo dedicado a apresentar obras e autores de mangá pela primeira vez aos leitores brasileiros.


Clássicos de Cláudio Seto de 1968: O Ídolo Juvenil, Ninja O Samurai Mágico e O Samurai (repubicado em 2019).
Clássicos de Cláudio Seto de 1968: O Ídolo Juvenil, Ninja O Samurai Mágico e O Samurai (repubicado em 2019).

Nos anos 80, pouca coisa foi tentada com o estilo mangá, como o gibi de edição única Robô Gigante, de Watson Portela e Selene Tobias (pseudônimo de Cláudio Seto), que trazia também o Ultraboy de Franco de Rosa. O gibi foi lançado em 1982 pela Grafipar, outra icônica editora de quadrinhos nacionais, que também lançou na mesma época Super Pinóquio, de Cláudio Seto, sem dúvida o mais importante autor brasileiro de mangá.


Pela editora Nova Sampa, Drácula - A Sombra da Noite, de Ataíde Braz e Neide Harue, chegou às bancas em 1985 e foi destaque naquela década. A mesma dupla ainda faria Skorpion - A Arma Mortal, em 1989, para a editora Veija. Desses títulos, somente Drácula seria concluído, como uma minissérie em cinco edições, os demais ficaram com apenas uma edição publicada, um sinal das dificuldades do mercado brasileiro.


Robô Gigante (1982) e Drácula (1985): o mangá brasileiro buscando seu espaço.
Robô Gigante (1982) e Drácula (1985): o mangá brasileiro buscando seu espaço.

A partir da segunda metade da década de 1980, algumas editoras tentaram publicar mangás originais traduzidos, como o Lobo Solitário (Editora Cedibra), Crying Freeman (Ed. Nova Sampa), Mai – A Garota Sensitiva (Ed. Abril) e Akira (Ed. Globo). Nenhum projeto vingou como esperado, e o mangá continuaria sendo considerado um nicho muito específico.


Nos anos 90, na Editora Escala, a publicação de Street Fighter (1994) com desenhos de Arthur Garcia mostrou uma crescente influência da mangá em suas páginas. Também de Arthur Garcia, é notável destacar a grande quantidade de revistas e cursos de desenho com ênfase em mangá que o autor publicou, em diversas editoras. Na mesma época, a Editora Magnum publicou o mangá experimental Megaman (1996), produzido pelo Estúdio PPA. Mas essas revistas eram produções licenciadas de personagens de games japoneses. Com poucas iniciativas autorais dando resultados satisfatórios, o principal material de mangá a surgir naquela década seria exatamente uma criação brasileira.


Começando em 1999, Holy Avenger, de Marcelo Cassaro e Erica Awano para a Editora Trama, se tornaria o mais bem-sucedido mangá nacional (a despeito de Erica não considerar sua HQ um mangá legítimo), com 40 edições, fora os especiais e derivados.


Holy Avenger (1999) e Street Fighter (1994).
Holy Avenger (1999) e Street Fighter (1994).

Mesmo com algum sucesso pontual em certos momentos, a estética mangá só iria pegar com força no início do novo século, com a atuação das editoras Panini e JBC.


Com a explosão comercial do mangá original traduzido para o português a partir do ano 2000, graças a títulos como Os Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball (Ed. Conrad) e Samurai X (JBC), entre outros, os quadrinhos japoneses começaram a vir em massa ao Brasil, com outras editoras posteriormente entrando nesse mercado.


Nesse novo cenário, tanto o mangá quanto o animê passaram a ser as grandes referências para a maioria dos novos autores. Mesmo com os altos e baixos do mercado editorial brasileiro, o mangá se firmou como o principal tipo de HQ vendida no Brasil. E correndo por fora, de maneira quase heroica, cada vez mais autores brasileiros têm se destacado, seja publicando em plataformas digitais, seja publicando tiragens modestas através de financiamento coletivo.


Uma nova geração de autores começou a se destacar nas décadas de 10 e 20 do século XXI, como Valu Vasconcelos, Kiko Mauriz, Jefferson Ferreira, Talessa Kuguimiya, Paulo Marcello, Eudetenis, Riojin, Rhenato Guimarães, Valdo Alves, Fábio Gesse e o Estúdio Armon, entre tantos outros.


Com enorme variedade de estilos e propostas, o mangá BR busca o grande público.
Com enorme variedade de estilos e propostas, o mangá BR busca o grande público.

Tendo o mangá como modelo e inspiração, o quadrinho nacional se renova, incorporando uma escola narrativa dinâmica a histórias com ambientações variadas, com muitos autores explorando temáticas brasileiras. Nessa área, vale destacar obras recentes, como Ao Redor do Sol (sobre a imigração japonesa no Brasil), de Talessa Kuguimiya, Ginga (sobre capoeira), de Paulo Marcello e Oxente (ambientada no sertão nordestino), de Rhenato Guimarães.


Em paralelo ao mercado nacional, muitos autores busca espaço através de concursos internacionais, como o Silent Manga Audition, da empresa COAMIX, já premiou e deu menções honrosas a muitos autores brasileiros.


Celebrando os 70 anos de Sr. Bra da Colônia, mais os 60 anos de Tupãzinho e do Álbum Encantado, 2026 é realmente um ano especial para o mangá brasileiro, que tem tido muitos lançamentos sendo viabilizados por financiamento coletivo.


Os desafios de hoje - distribuição, divulgação, remuneração justa, concorrência estrangeira - são os mesmos de gerações anteriores, mas a criatividade se renova e busca alternativas a cada geração.


Com a determinação e o amor à arte que sempre marcaram os quadrinistas brasileiros, o mangá BR é o grande destaque entre as HQs nacionais e segue buscando seu lugar junto a um público crescente e com enorme potencial de mercado.

Super Pinóquio, de Cláudio Seto (1982).
Super Pinóquio, de Cláudio Seto (1982).

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