Flashman e os órfãos abandonados
- Ale Nagado

- há 5 horas
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O dramático caso real que serviu como tema da série Super Sentai de grande sucesso no Brasil.

Produzido em 1986 pela Toei Company, a série Comando Estelar Flashman faz parte da franquia Super Sentai e foi um grande sucesso no Brasil no final dos anos 80, tendo sido exibido na extinta TV Manchete, com distribuição da Everest Video.
O enredo da série faz alusão a um caso que ficou célebre no Japão, o dos "Chuugoku Zanryu Koji", as crianças japonesas órfãs ou separadas dos pais, que foram abandonadas na China no fim da Segunda Guerra Mundial. Foi um caso extremamente traumático, e que só começou a ser conhecido pelo grande público japonês durante a década de 1980.

Era um período em que a franquia Super Sentai, desde o início voltada mais ao público infantil, começava a apostar cada vez mais em tramas com um subtexto que pudesse ser melhor compreendido por adultos, algo que era bastante comum no tokusatsu dos anos 1960 e 70. E tudo isso de modo sutil, sem panfletagem e sem desvio do foco no entretenimento e na promoção de produtos colecionáveis.
Com a série anterior, Esquadrão Relâmpago Changeman (1985), o tema era a tragédia da guerra e o que ela faz às pessoas, obrigadas a lutar até a morte com desconhecidos. Com Flashman, o tema da guerra foi mantido, mas desta vez focando em um caso muito doloroso que atingiu os próprios japoneses.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o Japão manteve muitos cidadãos em áreas conquistadas na Ásia, incluindo em regiões da China, a fim de estabelecer colônias. Era uma consequência da Segunda Guerra Sino-Japonesa, que durou entre 1937 e 1945. Com a derrota japonesa em 1945, as famílias espalhadas no continente começaram a retornar a seu país de origem.
Porém, muitas crianças que haviam perdido seus pais na guerra ou foram deles separados durante o conturbado período que se seguiu à derrota japonesa, não tiveram ninguém que assumisse responsabilidade por elas e foram simplesmente deixadas para trás pelas autoridadees japonesas. Além disso, mulheres japonesas que se casaram e tiveram filhos com chineses foram proibidas de voltar ao Japão com seus filhos, e preferiram ficar na China.

Acolhidas pelo Governo Chinês, cerca de 4 mil órfãos japoneses foram adotados por famílias locais. Muitos bebês, inclusive, cresceram acreditando serem filhos naturais de chineses. O número é controverso, pois num primeiro momento, muitos japoneses foram dados como mortos perante as autoridades japonesas. Segundo os chineses, cerca de 13 mil japoneses foram deixados para trás, a maioria crianças.
Uma vez adotados por famílias rurais chinesas, muitos só descobriram sua origem na vida adulta ou na velhice, e a revelação pública do caso, na China, gerou outros problemas. Diversos foram hostilizados por serem filhos dos opressores japoneses que tanto fizeram sofrer o povo chinês na guerra. Muitos desses órfãos eram muito pequenos para recordar os nomes ou rostos de seus pais verdadeiros, assim como na série Flashman.
No início da década de 1980, muitos desses japoneses naturalizados como chineses quiseram voltar para o Japão em busca de seus pais ou de seus parentes vivos. O que se seguiu para muitos foi desapontamento, pois tiveram dificuldade em se adaptar. Por não saberem (ou mal se lembrarem) do idioma, tinham dificuldades em se comunicar, e se sentiam culturalmente deslocados em sua própria terra natal. Muitos moveram processos contra o Governo Japonês, pedindo indenização por terem sido abandonados e precisaram lutar na justiça, vivendo com dificuldades e dependendo de ajuda do Estado.
Pouco mais de 2.500 desses japoneses abandonados permaneceram lá. A maioria desses órfãos de guerra já morreu, sem nunca terem tido justiça ou descoberto a verdade sobre suas famílias. A história de tristeza e luta por dignidade foi registrada em filme.

Em 2021, um longa-metragem co-produzido entre Japão e China contou um pouco dessa história, com a obra Saikai no Nara, ou "Reencontro em Nara". O longa conta a luta de uma avó chinesa para se reencontrar com sua filha adotiva, que optou por retornar ao Japão em busca de suas raízes, mas desapareceu sem dar notícias.
O caso dos órfãos abandonados é um dos muitos casos que refletem as atrocidades e os reflexos das ações cruéis do Japão em sua época de nação expansionista e conquistadora. A postura agressiva do país só terminou com sua rendição aos EUA, ação que já estava sendo preparada na época do bombardeio nuclear americano contra civis de Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945. Os civis são sempre as peças descartáveis no desumano e diabólico jogo de poder e ambições políticas que movem os senhores da guerra, até hoje.
Com Flashman, de modo sutil, os produtores trouxeram à tona o assunto do deslocamento forçado e separação de crianças de suas famílias, um dos traumas da guerra. Como na ficção, a maioria dos órfãos nunca descobriu sobre seus verdadeiros pais e, mesmo dentre os que descobriram, era comum o sentimento de se sentir rejeitado por sua própria terra natal. Quem assistiu Flashman até o fim, vai estabelecer as conexões do enredo com essa triste cicatriz de guerra.
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::: V Í D E O S :::
Trailer do filme Saikai no Nara ~ Reencontro em Nara, lançado em 2021 na China e em 2022 no Japão. O obra traz elenco misto de atores japoneses e chineses. Com produção dividida entre profissionais dos dois países, o roteiro e direção ficaram com o chinês Peng Fei, e a trilha sonora com o japonês Keiichi Suzuki, do animê Tokyo Godfathers (2003). O filme rodou em festivais, mas não há informações sobre disponibilidade no ocidente.
Documentário chinês sobre o filme e as delicadas questões que envolvem o tema. Legendas em português disponíveis.
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