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Sobre sucesso, mercado e diálogo geracional na HQ brasileira

Algumas reflexões sobre o que é uma obra bem-sucedida e como as percepções sobre isso mudam com o tempo.

Seja no papel ou em ambiente digital, certos desafios não mudam.
Seja no papel ou em ambiente digital, certos desafios não mudam.

Para quem acompanha as mídias sociais ligadas aos quadrinhos nacionais, o momento é bastante interessante do ponto de vista criativo. Com destaque para o mangá brasileiro, cada vez mais projetos têm sido viabilizados para publicação via financiamento coletivo, e projetos muito bons têm sido lançados, alguns já devidamente comentados ou divulgados aqui neste espaço. Porém, é importante não se deixar levar pelo engajamento de redes sociais e nem pela empolgação ufanista, o que pode impedir uma percepção sobre a realidade.


Quadrinhos em geral, e especialmente a HQ nacional (fora do universo da Turma da Mônica, é importante frisar), não é cultura de massa, é cultura de nicho. Geralmente, uma cultura formada por nichos pequenos, por mais animados e engajados que possam ser.


O conhecimento comum é o de que os quadrinhos autorais brasileiros não são populares a ponto de poderem ser vendidos em bancas de jornais, ou em vários, casos, nem em lojas especializadas. As tiragens são muito pequenas, geralmente não passando de uma ou duas centenas de exemplares, geralmente comprados em pré-venda ou crowdfunding (financiamento coletivo).


Existem trabalho celebrados e apontados como sucesso de público via financiamento coletivo que, na prática, foram viabilizados porque 200 pessoas compraram. Pode ser algo razoável em termos de mercado editorial atual (que vive um momento bastante ruim), mas está longe de ser algo significativo em termos de sociedade. Vendo os valores praticados e a qualidade gráfica, é impossível fazer as contas e concluir que os autores ganharam um dinheiro razoável com isso. Antigamente, se um gibi de banca vendesse poucos milhares de exemplares (o limite variava muito de editora para editora), era cancelado sumariamente. Hoje, com a venda direta, autores conseguem até viabilizar a impressão de um trabalho para 100 pessoas, mas isso é um número de leitores tão pequeno quanto sempre foi.


Geralmente, o conceito de êxito profissional de uma área qualquer seria o profissional em questão viver de seu trabalho. Um advogado com sucesso profissional é alguém com uma boa carteira de clientes, e que com eles mantém um bom padrão de vida. Um designer de sucesso é aquele que, seja como freelancer ou como contratado de uma empresa, consegue tirar seu sustento e manter um padrão de vida aceitável, sem ter que fazer bico com outra atividade ou morar com os pais. Nos quadrinhos BR, isso é diferente.


As redes sociais ajudam, mas também podem iludir.
As redes sociais ajudam, mas também podem iludir.

Com as redes sociais, e toda a desconexão com o lado prático e real da vida que elas acarretam, criou-se uma figura bastante peculiar: a do "autor de sucesso" que não ganha dinheiro com sua obra aclamada, apenas elogios e eventuais prêmios e honrarias. HQs nacionais que "bombam na internet", mas que na prática poucas pessoas desembolsam um valor para comprar uma edição impressa. O real significado disso é que sucesso virtual e real são coisas muito diferentes. Ler de graça é uma coisa, pagar por um impresso é outra absolutamente diferente.


Em um passado cada vez mais distante, até meados dos anos 90, um autor de sucesso era sim alguém premiado e elogiado na mídia especializada, mas em geral também era alguém que conseguia se sustentar com HQ, seja total ou parcialmente. Os brasileiros que desde aquela época produziam para editoras estrangeiras (especialmente americanas), sem dúvida estavam em vantagem no quesito remuneração, mas com um mercado interno aquecido e muitas revistas em bancas, havia um mercado de trabalho de fato. Ainda que muitos complementassem sua renda produzindo para agências de publicidade, gráficas, estamparias ou desenhando em eventos.


As gerações anteriores vivenciaram uma realidade de mercado diferente, claro. Hoje, as coisas mudaram, a dinâmica da sociedade mudou, mas será que as gerações anteriores não têm nada a oferecer à geração atual em termos de experiência? Vejo divulgadores de HQ que só divulgam autores de sua geração, e ignoram por completo quem veio antes. Viver enxergando só o momento atual pode revelar uma visão limitada em termos de conhecer o mercado editorial. Que, como já foi mencionado, é antigo e não surgiu com o advento das plataformas de financiamento coletivo.


Já vi quadrinistas da geração atual debatendo o mercado de HQ, e não havia um único autor veterano entre eles. Somente gente que publica de alguns anos para cá. Isso, acredito, é achar que se está desbravando um mercado que não existia antes, o que é uma visão equivocada e um erro histórico. O mercado de HQ nacional não é novo, e está sempre mudando para se adaptar.


Hoje os autores produzem suas HQs mais como "arte" (e com muitos resultados excepcionais), mas vão fazendo conforme o tempo e a inspiração permitem. Em outros tempos, era preciso produzir dezenas de páginas por mês para receber um valor que fosse suficiente para sobreviver. E isso com ou sem inspiração, é importante frisar.


Com o modelo de financiamento coletivo visando (na maioria dos casos) a viabilização de um produto impresso, a HQ perdeu muito de seu caráter de "trabalho profissional" (não em termos de qualidade, mas em termos de atividade rentável) e se tornou muito mais uma manifestação artística. Como escrever poesia ou cantar por hobby.

Fazer dinheiro com HQ: o grande e eterno desafio.
Fazer dinheiro com HQ: o grande e eterno desafio.

Com isso, pode-se perceber que mercado de trabalho e mercado de publicações não são exatamente a mesma coisa nos dias de hoje. É possível ser um autor aclamado e com trabalhos premiados, sem que se ganhe dinheiro a ponto de poder viver desse trabalho de HQ.


O mercado de quadrinhos, e especificamente o de quadrinhos nacionais, já passou por muitos momentos. Alguns, relativamente bons, outros, bastante complicados. Há autores veteranos com 20, 30, 40 anos de atividade (ou mais), que ainda trabalham na área, e que certamente possuem uma perspectiva diferente de autores com 5 ou 10 anos de carreira, especialmente no quesito produtividade.

Os desafios básicos de hoje são os mesmos do passado. Distribuição, divulgação para um público fora da bolha, monetização, concorrência desigual com material estrangeiro (que já se pagou e deu lucro em seu país de origem) e produtividade com qualidade. Hoje, impressões impecáveis e financeiramente acessíveis, além da animação das redes sociais, criam falsas percepções sobre sucesso e realidade.


As respostas para conciliar sucesso virtual com sucesso real (leia-se "financeiro"), são difíceis, incertas. E sempre foram assim neste nosso país tão complicado em questões econômicas, jurídicas, políticas e fiscais. Uma coisa, porém, parece óbvia e necessária: um diálogo geracional e parcerias entre autores de HQ de épocas diferentes seria benéfico para todos, tanto para os veteranos quanto para aqueles que ainda estão batalhando para mostrar seu trabalho. Nesse quesito, entre os poucos casos registrados no cenário recente, o selo Nerdola Comics acertou em cheio ao trazer para suas fileiras de autores o veterano Joe Bennett, com vasta experiência no mercado nacional e americano.


Esse diálogo geracional é muito forte no meio da dublagem brasileira, e poderia ser muito melhor trabalhado no meio das HQs nacionais. Claro que a dublagem possui um mercado de trabalho no qual veteranos e iniciantes interagem e se encontram em estúdios de gravação. Mas todo dublador em começo de carreira conhece o trabalho de muitos que vieram antes dele. Isso acontece pouco no meio da HQ nacional, em especial no meio do mangá brasileiro. Seus referenciais são os autores japoneses, e muitos não possuem o menor interesse em conhecer materiais brasileiros mais antigos, seja de qual estilo for. E isso vale tanto para autores quanto para criadores de conteúdo.


Conhecer a história do mercado em que se está inserido, bem como conhecer as obras e as dificuldades enfrentadas por autores que vieram antes, são coisas que deveriam ser vistas como fundamentais para qualquer profissional que busca excelência, autoridade e sucesso em sua área de atuação.


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