Representatividade Amarela
- Ale Nagado

- 8 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 3 de jan.
Algumas reflexões sobre um emergente movimento racial e social de descendentes de asiáticos buscando visibilidade.

Eis um assunto que me incomoda, e que é muito delicado. Tenho visto em redes sociais aqui e ali um movimento emergente de "identitarismo amarelo". Descendentes de orientais falando em "vozes amarelas", "representatividade amarela", e coisas do tipo. Seguindo os passos do movimento negro, buscam visibilidade e espaço no mercado cultural, leia-se: TV, cinema, editoras, agências de publicidade e afins.
Já se disse, no passado, que há muito pouca presença de asiáticos em novelas ou na grande mídia, o que não deixa de ser meio óbvio, mas já foi muito pior. Oriental (em geral, "japonês", que é como sou chamado até hoje por muitos) já foi sinônimo de gente invisível, irrelevante do ponto de vista estético para o brasileiro médio em décadas passadas. A explosão da cultura pop japonesa entre o final dos anos 1980 e em especial nos anos 90, bem como a Onda Coreana (que começou timidamente ainda nos anos 90), eliminaram essa percepção e a beleza oriental caiu no gosto médio da população. O K-pop e os K-dramas mudaram paradigmas de beleza em todo o Ocidente, e isso inclui o Brasil. E no geral, a percepção do brasileiro sobre orientais e seus descendentes é bem positiva há muitas décadas.
Claro que estão tentando incentivar a presença de descendentes de asiáticos na mídia através de um discurso político, pois isso é trabalho e dinheiro no bolso de quem estiver bem posicionado junto ao movimento. E para chamar a atenção, uma dose de vitimismo acaba sendo usada.
Basicamente, eu discordo de abordagens meramente identitárias, que ficam categorizando e classificando as pessoas por cor de pele, sexo, raça ou o que for, pois isso já tem motivado leis das mais controversas em nosso país.
Somos todos seres humanos e filhos de Deus, e é nisso que eu acredito. Também acredito em oportunidades iguais, mas com resultados proporcionais a serem conquistados por mérito, não por uma compensação histórica ou uma imposição de qualquer tipo.

Para quem está de fora vendo esse movimento, pode parecer uma atitude de sobrevivência mercadológica, pois muitos já perceberam que a cultura em nível governamental tem suas preferências quando se fala em diversidade. Eu não acho saudável para uma sociedade ficar classificando as pessoas por grupos identitários, o que é uma visão política e ideológica. Acredito que a arte e a cultura já estão politizadas demais. Para muita gente, tudo gira em torno de identitarismo e valorização de raça, cor ou gênero, o que é algo divisionista típico da cultura Woke. Porém, em diferentes momentos da História, movimentos identitários foram importantes para chamar a atenção da sociedade e lutar contra situações profundamente erradas e injustas. Não vejo essa gravidade sobre descendentes de japoneses, chineses e coreanos no Brasil atual.
O descendente de asiático pode até se queixar de estereótipos e piadas, mas não dizer que são socialmente oprimidos. Ignorados por alguns segmentos culturais, certamente são, mas o mangá, animê, dorama, K-pop, K-drama, cinema chinês, japonês e coreano... tudo isso virou mainstream, fora a culinária e as artes marciais, muito apreciadas. Na real, a queixa é que os brasileiros com ascendência asiática muitas vezes não conseguem espaço em editais culturais do governo para falar de cultura asiática, que privilegiam muito mais outras manifestações culturais ligadas à raça. E isso é muito mais uma luta política por espaços nos meios culturais e midiáticos.
É certo que muitos dos primeiros imigrantes japoneses, no começo do século passado, foram enganados para virem ao Brasil. Muitos trabalharam em condições difíceis e hostis, quase análogas à escravidão. Durante o período da Segunda Guerra Mundial, os japoneses e descendentes foram realmente oprimidos pelo governo brasileiro, sendo proibidos de falar em japonês em público. Muitos tiveram casas invadidas por policiais e soldados, em busca de "indícios de atividade inimiga", e sofreram humilhações severas. Acho importantíssimo contar essas histórias, e há obras que fazem isso com maestria. Mas contar essas histórias é algo muito diferente de levantar bandeiras identitárias.
Ser chamado de "japa" ou "china" tem mais relação com falta de cultura e de educação do que com uma suposta opressão social ou estrutural. Há quem relate se sentir um estrangeiro em seu próprio país por ser sempre chamado de "japonês", por exemplo. Se isso dói a ponto de ser uma ferida emocional, uma terapia pode ser uma boa ideia. Mas simplesmente dizer que nasceu no Brasil, e portanto é tão brasileiro quanto qualquer outro, resolveria facilmente a questão, sem tragédias para o psicológico. Adotar aquela postura de vítima oprimida da sociedade, em um país que, no geral, tem uma boa imagem de asiáticos, soa desproporcional.
Tem um outro ponto: não dá para colocar num mesmo balaio os descendentes de japoneses, coreanos, chineses, filipinos, tailandeses, indianos ou vietnamitas. Culturas milenares com pontos de intersecção e influências mútuas, mas diferentes entre si. E por mais que eu seja conhecido por divulgar a cultura pop japonesa, ou mesmo a cultura japonesa em geral, também gosto e lido com outros assuntos, como o quadrinho brasileiro e o mercado editorial. Eu jamais me deixaria encapsular em um movimento identitário, pois minha identidade como nipo-descendente é apenas um aspecto do que eu sou, não a totalidade do meu ser e meus interesses. Outro assunto correlato: culturas asiáticas.
Se a pessoa, descendente ou não, gosta ou se identifica com a cultura japonesa, que divulgue essa cultura. Se é descendente ou prefere a cultura coreana, divulgue a cultura coreana, e por aí vai. As culturas asiáticas, especialmente a coreana e a japonesa, têm conquistado muitos entusiastas sem qualquer ascendência. Ao se falar em "identidade ou representatividade amarela", pode-se cair em algum tipo de exclusivismo ou superioridade de alguém falar sobre um assunto com base em raça, em ancestralidade. Conheço não-descendentes que conhecem e fazem muito mais por culturas asiáticas do que muitos descendentes.
Cada povo asiático tem suas peculiaridades, assim como acredito que cada nação africana tenha a sua própria história, arte, culinária, biotipo médio e costumes. Basicamente, o identitarismo se forma a partir da necessidade de uma categoria social oprimida, e não vejo assim a situação de asiáticos e seus descendentes no Brasil.
Cor de pele ou um conceito de raça são coisas que criam rótulos, algo tão ou mais nocivo quanto estereótipos. Porém, não sou sociólogo ou antropólogo, então peço desculpas por colocações imprecisas. O aspecto principal deste breve artigo é marcar uma posição sobre esse tema. Enfatizar herança genética para ressaltar seu "lugar de fala" em assuntos culturais é algo nocivo, pois conhecimento sobre uma cultura pode ser adquirido com convivência e estudo. E estimular vitimização só piora a situação de uma sociedade sufocada por cotas, auxílios e bolsas, que ampliam o controle do Estado sobre cada aspecto da vida.
Enfim, vejo com certa preocupação o crescimento desse movimento pela "representatividade amarela", exacerbação da "amarelitude", "vozes amarelas" e termos afins. Pode parecer apenas uma legítima luta por espaço nos mercados de trabalho artísticos e culturais, mas o componente político que isso carrega é potencialmente gerador de mais divisão, vitimismo e ressentimentos. Nossa sociedade já está dividida demais.
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