• Ale Nagado

PINÓQUIO - A versão de Osamu Tezuka

A versão do Deus do Mangá, Osamu Tezuka, para um dos maiores clássicos da literatura infanto-juvenil.

O boneco que deseja virar gente, em uma versão que transita entre a visão do autor original e a de Walt Disney.

Uma das histórias infantis mais famosas do mundo é a de Pinóquio, o boneco de madeira mentiroso que sonha em virar gente. Criação do escritor italiano Carlo Collodi (1826~1890), foi publicado pela primeira vez em 1881 e ganhou o mundo quando virou um aclamado longa-metragem em animação pelos estúdios Disney em 1940.


O personagem se tornou um ícone cultural para todas as idades, tendo recebido inúmeras versões e adaptações, em várias mídias e em vários países. Sua história de amadurecimento, às custas de muito sofrimento por suas mentiras, ganhou as mais diversas interpretações, incluindo nos quadrinhos japoneses.


A versão do lendário autor de mangás Osamu Tezuka (1928-1989) foi publicada originalmente em maio de 1952, pela editora Tokodo. O mangá, tanto no história quanto no traço, são fortemente calcados no filme de animação da Disney. Porém, a violência presente no livro original, que fora apagada no desenho animado, aparece em diversos momentos, como o enforcamento de Pinóquio. As circunstâncias são diferentes, mas o enforcamento do personagem é mostrado cruamente.


Em outra cena forte para os padrões politicamente corretos atuais, Pinóquio experimenta cigarro e álcool, o que foi decisivo para que a edição em português recebesse a classificação para maiores de 16 anos. E isso acaba sendo um tremendo equívoco, visto que não é apologia ao vício e sim um alerta aos jovens. Diferenças culturais à parte, Pinóquio é leitura infantil sim e daquelas que podem ser apreciadas por pessoas de qualquer idade.

Pinóquio conhece enorme crueldade em sua difícil jornada de aprendizado.

O Grilo Falante de Tezuka é praticamente um decalque da versão Disney e aparece como a consciência de Pinóquio, interagindo com ele com autoridade moral. Esse importante elemento também faz parte da mais conhecida versão japonesa do Pinóquio, que não é a de Tezuka. Na versão em animê do Pinóquio (Kashinoki no Mokku, ou "Mok do Carvalho", de 1972) do estúdio Tatsunoko Pro, já exibida no Brasil em diferentes ocasiões, acontece a morte do Grilo, causada por Pinóquio. Quando o animê foi reexibido no extinto canal pago Fox Kids, a cena específica da morte foi apagada, deixando situação meio sem sentido. A exibição brasileira original, na extinta TV Tupi, mostrava claramente a morte dele ao ser atingido acidentalmente por um martelo, com direito a boca espumando. Depois, o Grilo Falante aparece como um espírito, a todo momento alertando e tentando aconselhar Pinóquio para que não corra perigos e faça a coisa certa. Essa versão da Tatsunoko levava ao limite as situações dramáticas vividas por Pinóquio. O boneco podia ser cruel e inconsequente, mas também experimentava um enorme sofrimento para aprender lições dolorosas, muitas vezes com mortes bastante trágicas ao seu redor. O final, em que Pinóquio é revivido e transformado em menino de verdade após ser fuzilado em uma cena bastante tensa, mantém a essência da obra clássica. Amadurecer tem a ver com aprendizado, sofrimento e resiliência, algo importante que toda criança deve aprender para se tornar alguém forte e independente.

Capa de um disco com as músicas da série do Pinóquio da Tatsunoko, lançada no Japão em 1972.

Essa essência valoriza o esforço individual, a honestidade, o altruísmo e a capacidade de aprender com seus erros, coisas que fazem parte da mensagem da obra original. A versão de Tezuka também preserva essas características, e também mostra bem mais violência do que a visão clássica da Disney, sendo também menos visceral que a versão da Tatsunoko.


A edição tem boa apresentação visual e projeto gráfico, mas o projeto editorial poderia ter incluído informações de bastidores e uma contextualização do trabalho, um verdadeiro ícone da cultura ocidental. Por se tratar de material muito antigo e que não foi restaurado no Japão, a impressão não é das melhores, mas isso não prejudica a leitura e apreciação dos desenhos.


Pinóquio é um trabalho da fase inicial de Tezuka e a diagramação é bastante simples e tradicional, mas o ritmo narrativo é impecável. O traço já mostrava a estilização que o tornaria famoso. Para o Deus do Mangá (como é reverenciado no Japão) e criador de ícones como Astro Boy e A Princesa e o Cavaleiro, a narrativa dinâmica e o uso da linguagem cinematográfica foram suas grandes marcas no estabelecimento do moderno mangá.

A capa original.

O excesso de reverência ao traço do estúdio Disney mostra um Tezuka que ainda não era o mestre arrojado que se tornaria nos anos seguintes; mas não se trata de um Tezuka menor, muito pelo contrário. É o fascinante retrato de um artista ainda jovem que iria transformar para sempre a indústria dos quadrinhos de seu país e se tornar referência mundial.


Para estudiosos de quadrinhos e da arte narrativa, além de leitores de qualquer idade, um pequeno tesouro dos quadrinhos japoneses.


PINÓQUIO

Título original: Pinocchio

Criação: Carlo Collodi (livro original)

Roteiro e arte: Osamu Tezuka

Tradução: Karen Kazumi

Formato: 15 x 21 cm, com 136 páginas

Total: Volume único

Lançamento no Brasil: Editora NewPOP (2017)

Classificação indicativa: 16 anos

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