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Animê, Ansiedade e Dopamina

há 6 horas
7 min de leitura

Pesquisa no Japão traz à tona um problema relacionado ao consumo desenfreado de entretenimento e informação.

Nunca houve tantas opções de entretenimento.
Nunca houve tantas opções de entretenimento.

🚫 Sem IA - O Blog Sushi POP não utiliza textos escritos com Inteligência Artificial. Todos os textos por Alexandre Nagado, exceto quando indicado.

No Japão, uma pesquisa realizada recentemente buscou saber a forma como o público local está consumindo conteúdo audiovisual, especificamente o animê. Segundo dados levantados pela Ponta Research, da empresa Loyalty Marketing Co., grande parte do público japonês assiste episódios de séries em velocidade acelerada de 2x o tempo normal, para adiantar partes "enfadonhas" e ir logo para a conclusão do episódio. Tudo para "ganhar tempo" e assistir mais coisas, como se o senso de urgência por mais produtividade houvesse invadido até mesmo os momentos de lazer.

A pesquisa, realizada em Tokyo entre os dias 5 e 7 de agosto de 2026, perguntou sobre os hábitos de consumo de entretenimento para 1.000 pessoas que declararam assistir séries de animê regularmente. A grande diferença geracional é que os entrevistados na faixa dos 20 anos assistem suas séries em serviços de streaming pela praticidade, enquanto o público com mais de 50 anos ainda prefere acompanhar pela TV.


Dentre todos os hábitos listados, porém, o dado que mais chamou a atenção está relacionado ao tempo gasto com um episódio padrão, de pouco mais de 23 minutos. Muitos assistem em velocidade acelerada de 2x, para pular partes "enfadonhas". A pesquisa por amostragem permitiu identificar esse comportamento por faixa etária:


  • 35,6% dos entrevistados na faixa dos 20 anos assiste em velocidade acelerada (2x)

  • 32,4% na faixa dos 30 anos

  • 18,4% na faixa dos 50 anos


Além disso, 61,7% do público total declarou que pula as aberturas e encerramentos regularmente, o que não chega a surpreender. Já o dado sobre assistir em velocidade acelerada foi considerado surpreendente e muitos produtores e criadores ainda estão tentando lidar com essa informação, para ver como usar isso para melhorar a experiência do público.

Entre aqueles que costumam maratonar séries, o hábito já está bem disseminado. Essa prática pode ser vista por muitos como uma forma de ganhar tempo, de ver mais coisas e ser "produtivo" até na hora do entretenimento. Isso está ligado a uma grande característica de nosso tempo: a ansiedade, que ao se manifestar prejudica vários aspectos da vida.


Sem entrar no aspecto médico ou psicológico, mas apenas comportamental, vemos que pessoas ansiosas tendem a se ocupar menos de atividades introspectivas, como a leitura. Ou lê e absorve bem menos o conteúdo, o que também é prejudicial.

One Piece: para maratonar grandes sagas, muitos recorrem à velocidade 2x, perdendo muito da experiência planejada pelos autores e produtores.
One Piece: para maratonar grandes sagas, muitos recorrem à velocidade 2x, perdendo muito da experiência planejada pelos autores e produtores.

O povo japonês é conhecido por ter muito forte o hábito da leitura, e as tiragens locais de revistas, jornais, mangás e livros sempre figuraram ente as maiores do mundo. E mesmo lá, os vídeos curtos que se tornaram predominantes nas plataformas, no TikTok e nos aplicativos de comunicação tiveram um impacto negativo, resultando em perda de tempo e capacidade de concentração.


Cada vez mais, o que se vê é uma urgência em consumir rapidamente um conteúdo, para "ficar livre" e partir para ver outra coisa. É uma impaciência, um crescente tédio, em parte gerado pelo excesso de oferta de opções de entretenimento no mundo digital. Tudo isso leva a uma compulsão por dopamina, e do tipo mais barato e vulgar possível. A dopamina, porém, não é uma "molécula do prazer" como muitos ainda dizem, mas faz você querer algo que lhe faz bem, ou buscar uma sensação boa.


Dito de modo bem simplificado, a dopamina é um neurotransmissor importante relacionado à memória, motivação, movimentos e busca pelo prazer. No aspecto que nos interessa comentar aqui, quando é produzida e estimulada no organismo, leva a buscar algo que provoque uma sensação agradável. Isso ocorre quando fazemos algo que gostamos ou quando assistimos a um bom filme, ouvimos uma música que nos agrada ou mesmo quando lemos um livro ou HQ interessantes.


Funciona como um sistema de recompensa natural, e se torna algo que o organismo necessita ainda mais para se regular em quadros de estresse, solidão, depressão ou ansiedade. No entanto, a busca por vídeos curtos, a busca desenfreada por algo para assistir, fazendo um scrolling constante na tela, pulando de vídeo em vídeo sem prestar muita atenção, a imersão em sites de compras, em pornografia, tudo isso gera dopamina, mas de liberação obtida sem esforço, reduzindo seus efeitos e duração. A tecnologia e o excesso de oferta levaram muitas pessoas a esses hábitos.

TikTok Japan: dancinhas, exibicionismo e a mesma perda de tempo.
TikTok Japan: dancinhas, exibicionismo e a mesma perda de tempo.

Assim, com dopamina sendo obtida sem esforço e em doses cada vez maiores, vai ficando cada vez mais difícil para o cérebro regular os hormônios. Sem uma satisfação natural, que só é gerada com esforço, vai sendo criado um estado de insatisfação crescente, e de busca por mais diversão.


É como ficar fissurado em algum doce industrializado barato e que está facilmente ao alcance, e comer isso até ficar de estômago cheio, para depois rejeitar uma refeição nutritiva, o que levará a um declínio da saúde. O cérebro vai querendo sempre mais, e com a necessidade de saciar essa compulsão comportamental, busca-se cada vez mais consumir coisas rápidas e de fácil acesso. Isso se assemelha a um vício que, como todos os outros, só acelera a quantidade e frequência.

Ao longo dos anos, a mídia audiovisual tem trabalhado a percepção de tempo do espectador, sempre buscando prender mais a atenção. A cada década, a edição de imagens fica mais acelerada, com mais cortes. Na proporção inversa, a capacidade de concentração vai ficando reduzida, pois a ansiedade também aumenta conforme cresce o impulso de ver logo o final para sentir aquela "recompensa" e se "liberar" para novas experiências.


Essa mudança, obviamente, não se restringe ao público de animê no Japão, mas é um reflexo das mudanças na forma de consumo de entretenimento em geral.

Shock Wave Stream: História, política e economia com Ju Ginger e Evandro Pontes.
Shock Wave Stream: História, política e economia com Ju Ginger e Evandro Pontes.

Pesquisas semelhantes já identificaram que porcentagens grandes de público não ouvem músicas inteiras, conhecendo somente trechos curtos que vê no TikTok e similares. Isso tem feito com que muitos produtores façam músicas só com uma estrofe mais refrão, para que inspire uma dança com potencial de viralizar. Nos serviços de streaming de música, pouca gente ouve álbuns completos, sendo este um hábito que sobrevive mais entre pessoas mais velhas, como os nascidos até a década de 1990.


No campo cinematográfico, os estúdios de Hollywood estão constantemente atualizando estudos sobre tempo de atenção ao que é projetado na tela de cinema. Cortes rápidos e mudanças de cena aceleram cada vez mais os acontecimentos visualizados, e tudo para manter a atenção de um público que, cada vez mais, olha para o celular enquanto consome entretenimento audiovisual se o filme está em uma cena onde nada de interessante parece acontecer. Querer acompanhar e se adaptar a essa percepção de tempo acelerado apenas aumenta progressivamente o problema da perda da capacidade de atenção.


Kimetsu no Yaiba: os momentos mais emocionantes só se tornam inesquecíveis quando a narrativa flui e alterna o ritmo.
Kimetsu no Yaiba: os momentos mais emocionantes só se tornam inesquecíveis quando a narrativa flui e alterna o ritmo.

A velocidade cada vez maior de perda de concentração entre as pessoas tem influenciado em como o entretenimento é produzido, mas isso é uma armadilha perigosa.


Para qualquer criador, seja roteirista, desenhista, diretor ou produtor, as técnicas de storytelling servem para prender a atenção do leitor e comunicar bem suas ideias, mas essa técnica tem sido empurrada para acomodar a necessidade de satisfação de um público com cada vez menos paciência, e isso é péssimo do ponto de vista artístico.


Profissionais de criação que trabalham com narrativas audiovisuais procuram conduzir o público a acompanhar sua história. O controle do ritmo narrativo é um dos maiores desafios de qualquer autor ou criador. Porém, isso tudo vai por água abaixo quando esse público acelera o vídeo, atropelando ritmo e intenção da narrativa. Quem acompanha a série Demon Slayer - Kimetsu no Yaiba, presenciou muitos momentos de grande impacto emocional, alternando momentos contemplativos com ação violenta, tendo no episódio 19 um dos pontos mais altos de toda a saga.


Na música, elementos como introdução e interlúdio têm sido deixados de lado, pois a maioria do público vai se interessar só por versos e refrões rápidos. A arte vai tentando se acomodar como produto para sobreviver, deixando de desafiar o público, mas apenas entregando o que tem sido vulgarmente (e imprecisamente) chamado de "dopamina barata". Mas nem tudo segue ou precisa seguir essa lógica para fazer sucesso.


Frieren: aprendendo a lidar com a passagem natural do tempo, sem ansiedade.
Frieren: aprendendo a lidar com a passagem natural do tempo, sem ansiedade.

Um moderno sucesso do animê foi a série Frieren e a Jornada Para o Além (2023), que envolve muitas reflexões sobre o valor da vida, a passagem do tempo e possui uma narrativa fragmentada, com muitas cenas contemplativas e uma evocação de serenidade em vários momentos. A trilha sonora, inspirada em música celta, também se incorpora à estrutura narrativa, criando uma experiência de encantamento com a história e permitindo que reflexões importantes sejam feitas pelo espectador enquanto assiste.


Apesar de boas cenas de ação, Frieren não é uma série sobre batalhas, e quem entendeu e se identificou com a proposta da série, jamais iria acelerar o vídeo somente para ver como termina cada episódio. Uma das coisas que Frieren mostra, é que a viagem é tão importante quanto o destino, e isso é mostrado com belas imagens e um ritmo mais cadenciado que a maioria esmagadora das animações atuais.


Para não se deixar encapsular nessa tendência a acelerar e pular partes, é vital deixar a pressa para trás, se isolar um pouco do ruído constante do mundo digital, e aproveitar um pouco a experiência de ver um filme, uma série ou uma animação para relaxar. Desacelerar e aproveitar momentos de relaxamento é fundamental para a saúde mental, necessária para depois focar nas coisas realmente importantes.


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