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Os japoneses e a Liberdade

O apelido de "bairro japonês" ou "bairro oriental" é natural ou um mero projeto de marketing? Conheça a história do bairro paulistano da Liberdade.

Bairro da Liberdade. Foto: Tony Galvez (Flickr)
Bairro da Liberdade. Foto: Tony Galvez (Flickr)

🚫 Sem IA 🚫 O Blog Sushi POP não utiliza textos feitos com ajuda de Inteligência Artificial. Todos os textos por Alexandre Nagado, exceto quando indicado.


Há décadas, o bairro da Liberdade, localizado na região central da capital paulista, é conhecido como "bairro japonês" ou "bairro oriental". Obviamente, nem era assim desde sua criação, mas foi se configurando ao longo de mais de um século de história. Porém, atualmente existe um movimento de nipo-descendentes que está espalhando o equívoco de afirmar que essa identidade nipônica ou asiática seria algo artificial, inventado pelo Regime Militar (1964~1985) nos anos 1970 a fim de incentivar o turismo e o comércio e apagar as origens da região, ligadas à resistência negra.


Porém, a presença japonesa na Liberdade não surgiu do nada, e muito menos foi algo artificial.


A imigração japonesa no Brasil começou em 1908, e já na década de 1910, várias famílias de japoneses começaram a se estabelecer na região que seria chamada de bairro da Liberdade, criando fortes núcleos comunitários. Ajudaram a urbanizar a região e montaram, desde os primeiros anos, pequenos comércios e vendas. A presença japonesa na Liberdade não foi "inventada" e cresceu muito antes dos anos 70.


Com a grande presença da comunidade, surgiram no bairro os cinemas dedicados a filmes japoneses, como o Cine Niterói (inaugurado em 1953), o Shochiku e o Jóia. As sessões eram enormes, movimentavam muita gente e na década de 1960, até mesmo atores japoneses renomados - incluindo o astro Yuzo Kayama - vieram para o lançamento de filmes na Liberdade.


Outras comunidades asiáticas foram chegando, primeiro chineses e depois coreanos, mas a comunidade japonesa foi vital para o crescimento e expansão do bairro. Um crescimento orgânico, mercadológico, cultural. Muitos asiáticos se instalaram na Liberdade por acharem mais fácil ficar perto dos japoneses e com eles fazer negócios e conviver.


O lendário Cine Niterói, inaugurado em 1953.
O lendário Cine Niterói, inaugurado em 1953.

Para quem deseja conhecer mais sobre essa história, existe o livro Cinema Japonês na Liberdade, de Alexandre Kishimoto, que detalha sobre esse fascinante período. Outro livro que conta aspectos da enorme efervescência cultural japonesa na Liberdade é o livro Rosa da Liberdade - A História de Rosa Miyake, de Ricardo Taira. É impossível fingir que isso não existiu, como fazem muitos ditos pesquisadores e influenciadores ligados à cultura japonesa.


Mas, porque existe o movimento de negar a presença orgânica e muito antiga dos japoneses? Em algum momento, foi gestada em ambientes acadêmicos a ideia de que existiu um processo de "japonização" do bairro da Liberdade, criado para incentivar o comércio local e apagar a história da resistência negra. Teria sido, supostamente, uma ação ardilosa de homens brancos capitalistas e racistas que "usaram" os japoneses - ditos "amarelos" - para cumprir seus planos. E é aqui que precisamos ser verdadeiros com as raízes históricas da região.


No bairro da Liberdade, existe até hoje, próxima à estação Japão-Liberdade do Metrô, a Capela de Nossa Senhora dos Aflitos, ou apenas Capela dos Aflitos, que foi construída no Beco dos Aflitos, fundado em 1775. Era um local onde eram sepultados escravos, indigentes e condenados à pena de morte.


Sobre esse local, foi erguida a Capela, inaugurada em 1779. Também existe a história do soldado negro conhecido como Chaguinhas, executado em 1821 após ter liderado uma revolta por melhores salários no exército. Uma das histórias relacionadas ao nome do bairro conta que a população que assistia à execução de Chaguinhas - a qual falhou duas vezes na tentativa de enforcá-lo - teria gritado "Liberdade". Um grito de resistência que, tendo ou não ocorrido exatamente dessa maneira, é apontado como uma das origens do nome oficial do bairro. A Capela deve ser preservada para as futuras gerações e isso não está em questão.

Capela dos Aflitos. Imagem: Projeto SP City
Capela dos Aflitos. Imagem: Projeto SP City

Como já explicado aqui, os japoneses começaram a chegar logo que começou a imigração para o Brasil, estabelecendo um forte núcleo de japoneses na região da Liberdade. Na década de 1930, cerca de 600 japoneses viviam lá, especialmente na Rua Conde de Sarzedas. Uma ocupação orgânica, cheia de riqueza histórica, comercial, social e cultural.


Além do comércio de produtos japoneses, a Liberdade fervilhava de cultura japonesa já nos anos de 1950 e 60, pois além dos cinemas haviam concursos de canto e de beleza com grandes prêmios em dinheiro, bailes para a juventude e muita badalação. Seu crescimento urbano foi totalmente ligado à presença da colônia japonesa.


Até Roberto Carlos se apresentou em um desses eventos, e isso antes do período em que algumas pessoas afirmam que a identidade japonesa do bairro foi "forçada" ou "inventada" pelo governo paulista. Pessoas do meio acadêmico afirmam que a identidade japonesa é relativamente recente, com total convicção e retórica, o que é preocupante, pois para acreditar nisso é necessário apagar a rica história de atividades culturais da colônia japonesa no bairro, documentada em diversas publicações e com muitas pessoas que vivenciaram tudo isso ainda vivas.

Shock Wave Stream: História, política e economia com Ju Ginger e Evandro Pontes.
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No Instagram, chegou-se ao absurdo de pesquisadoras descendentes de japoneses gravarem vídeo para contar "verdades" sobre a presença japonesa na Liberdade, afirmando que os japoneses foram usados (pelos brancos, afirmam essas pessoas) para "apagar" a história da resistência do povo negro. O termo "japonização" é usado de forma bem pejorativa, em um discurso rancoroso dito por descendentes de japoneses contra seus próprios antepassados.


Essa discussão tem ganhado força devido ao projeto da Esplanada Liberdade, uma antiga iniciativa de recuperação do centro da cidade que prevê a construção de um grande boulevard.


Com o projeto em vias de ser iniciado, começou uma movimentação desesperada de descendentes de japoneses protestando contra a iniciativa, que, segundo eles, vai apagar de vez a história do movimento negro, pois um dos objetivos é fortalecer a identidade oriental através do comércio e ações culturais. Contra ele, nipo-descendentes que se denominam "amarelos" criaram um abaixo-assinado contra a Esplanada e estão revoltados e angustiados contra tudo isso.


O projeto Esplanada Liberdade.
O projeto Esplanada Liberdade.

Como é um projeto de parceria entre a iniciativa privada e o poder público (governo), e este que vos escreve não endossa ações de políticos de qualquer espécie e posicionamento, nenhuma palavra sobre o projeto será dita neste espaço. A ideia de valorização da identidade asiática do bairro e a conservação de áreas urbanas é boa em si, mas como isso envolve verbas públicas, interesses comerciais e promoção de agentes políticos, não irei comentar sobre a Esplanada e iniciativas similares. Quero me ater única e exclusivamente na defesa da rica e tradicional história da colônia japonesa no bairro da Liberdade, que descendentes sem um pingo de gratidão por seus antepassados querem fazer todos acreditarem que serviu a propósitos racistas.


Também não falta quem diga que a Liberdade deve ser "devolvida" aos negros como "reparação histórica". Conceitos woke, divisionistas e maquiavélicos ditos com a convicção de quem se imagina sinalizando grandes virtudes. São, em geral, as mesmas pessoas que encampam discursos raciais sobre "amarelitude" e "representatividade amarela", um tema espinhoso já abordado no Sushi POP, que se posiciona contra a classificação de pessoas por cor de pele e a favor de uma convivência pacífica e respeitosa.


A chegada e fixação da comunidade japonesa - e depois asiática - na Liberdade não foi feita para supostamente apagar a rica história ligada à escravidão e à resistência negra ou quaisquer outros elementos étnicos e religiosos que marcaram a história da região. É uma história de mais de um século de luta por espaço e preservação cultural, que está sendo alvo de ódio por parte de descendentes de japoneses, e não um projeto mesquinho no qual os japoneses foram jogados lá de repente. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, e a Capela dos Aflitos está preservada até hoje, com todo todo o respeito devido a seu peso histórico.


Os revolucionários que travam esses embates na internet podem até achar os japoneses difíceis de se curvar a suas vontades, mas eles sequer começaram a enfrentar o poder econômico chinês, cada vez mais presente no mercado imobiliário da região.


Há mais de um século, os japoneses e seus descendentes fazem parte da história do bairro da Liberdade e o transformaram, ao lado de outros asiáticos, em um grande centro de cultura, comércio e lazer. Essa trajetória tem muito valor e também deve ser preservada do esquecimento e de deturpações movidas por ideologia.

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