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A perseguição aos imigrantes japoneses no Brasil

Atualizado: 25 de jul.

Em uma época de violência e repressão, uma dolorosa ferida foi aberta na colônia japonesa.

Um livro e um filme como parte de uma jornada em busca de justiça.
Um livro e um filme como parte de uma jornada em busca de justiça.

🚫 Sem IA 🚫 O Blog Sushi POP não publica textos feitos com ajuda de Inteligência Artificial. Todos os textos por Alexandre Nagado, exceto quando indicado.


A imigração japonesa no Brasil, iniciada em 1908, iniciou um fluxo de trabalhadores que vieram aos milhares para trabalhar na lavoura, em especial na de café. Todos vinham com a intenção de ficar um tempo, juntar um dinheiro e voltar para o Japão, que atravessava um período de forte recessão, com muitas regiões com pessoas passando fome.


Grande parte dos que vieram foi iludida pela propaganda da época, e vieram cheios de sonhos para um lugar que eles julgavam ser um paraíso cheio de oportunidades, mas encontraram condições de trabalho análogas à escravidão, um clima muito diferente e alimentação de outro padrão, sem os ingredientes a que estavam acostumados ter à disposição. Isso sem contar a dificuldade com o idioma português, extremamente diferente do japonês em sua estrutura. Mas ao invés de se revoltarem, esses imigrantes trabalharam duro, e a maioria fincou raízes no Brasil, o país onde viram crescer filhos e netos.

Cartaz de época, incentivando as pessoas a irem com suas famílias para o Sul. O Brasil e o Peru eram os destinos em questão.
Cartaz de época, incentivando as pessoas a irem com suas famílias para o Sul. O Brasil e o Peru eram os destinos em questão.

Além de todas as dificuldades, o período da Segunda Guerra Mundial, no qual Brasil e Japão estavam em lados opostos, iniciou um pesadelo. A ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas (1937~1945) iniciou, em 1942, uma pesada repressão aos cidadãos oriundos dos países do Eixo. Alemães, italianos e japoneses passaram a ser vigiados e, em muitos casos, perseguidos. Mais facilmente identificáveis pelo seu biótipo, os japoneses sofreram as piores humilhações, violências e perseguições. O preconceito racial contra os japoneses foi também algo sentido na sociedade, um sentimento alimentado pelo Estado e pela mídia sensacionalista.


Proibidos de falar seu idioma natal, proibidos de se reunir em festas ou atividades comunitárias, sujeitos a terem terras confiscadas, terem suas casas invadidas e reviradas por agentes policiais a qualquer hora do dia. Essa brutal rotina, por si só, espalhou medo entre os japoneses vivendo no Brasil. Perseguições similares aconteceram em várias partes do mundo. Todos os veículos de comunicação da colônia foram proibidos de atuar, e a informação passou a circular de forma clandestina. Isso foi só o começo de problemas ainda maiores.


O rendição incondicional do Japão, após os bombardeios nucleares em Hiroshima e Nagasaki, encerrou a guerra, mas não o sofrimento de muitos japoneses que estavam no Brasil. Com a deposição de Vargas, o governo transitório de José Linhares e a volta de democracia no final de 1945, o novo governo de Eurico Gaspar Dutra (1946~1951) manteve as restrições e a repressão truculenta aos japoneses. Porém, um novo e explosivo ingrediente estava piorando ainda mais as coisas.

Hiroshima, 1945. As notícias sobre o fim da guerra chegaram de maneiras diferentes perante a colônia japonesa no Brasil.
Hiroshima, 1945. As notícias sobre o fim da guerra chegaram de maneiras diferentes perante a colônia japonesa no Brasil.

Vitoristas vs. Derrotistas


Motivados em parte por sentimentos patrióticos, devoção religiosa ao Imperador (considerado à época um deus por seus súditos) e também empurrados ao desespero pelas medidas desumanas que continuavam perseguindo os imigrantes e fazendo sofrer suas famílias, muitos se recusavam a acreditar que o Japão havia perdido. Isso era alimentado por relatos mentirosos que circulavam na época, de maneira clandestina e estritamente dentro de círculos da colônia japonesa.

Começou o movimento dos "vitoristas" (que acreditavam na vitória do Japão) e dos "derrotistas" ou esclarecidos, que sabiam da verdade e tentavam conscientizar seus conterrâneos. Esses movimentos, que também lutavam por influência e espaços dentro de núcleos de imigrantes, logo entraram em confronto. Acreditando que estavam fazendo um bem para seu país, diversos japoneses se organizaram para eliminar os "traidores do Japão". Por outro lado, os derrotistas se aliaram às forças estatais, denunciando os vitoristas. A divisão sangraria a colônia japonesa, com numerosas mortes.

É o mesmo caso que o grande público tomou conhecimento através do livro Corações Sujos (editora Companhia das Letras, 2000), de Fernando Morais, e que virou um filme dirigido por Vicente Amorim em 2011. Desde seu lançamento, o livro de Morais tem sido alvo de críticas de pessoas da colônia japonesa pela sua imprecisão histórica, sensacionalismo e lacunas preenchidas com imaginação.


Conhecendo parte dessa história, e disposto a ir fundo no levantamento de informações, o jornalista (e atualmente também advogado) Mario Jun Okuhara, filho da lendária cantora e apresentadora de TV Rosa Miyake, se lançou a um projeto de produzir um documentário para registrar a verdade histórica. O resultado foi o filme Yami No Ichinichi ("Um dia de Escuridão") - O Crime Que Abalou a Colônia Japonesa. O documentário mostraria inclusive erros da obra Corações Sujos, que ao menos teve o mérito de chamar a atenção da grande mídia sobre o assunto.


A peça-chave para contar essa história foi um sobrevivente e protagonista daquele período. Assassino confesso do Coronel Jinsaku Wakiyama, um dos esclarecidos, o então jovem imigrante Tokuichi Hidaka, foi preso junto com seus companheiros de crime, cumpriu pena durante anos e depois tentou reconstruir sua vida.

Um grupo de prisioneiros da Ilha Anchieta. Foto: acervo de Tokuichi Hidaka
Um grupo de prisioneiros da Ilha Anchieta. Foto: acervo de Tokuichi Hidaka

De memória impressionante e detalhista, o arrependido Hidaka falou sobre os sentimentos que moveram seu grupo a cometer o atentado que resultou na morte do coronel. O crime foi fruto da educação que receberam, que considerava o Imperador do Japão um Deus, e portanto, impossível de ser derrotado. Isso, mais as informações falsas que circulavam e principalmente a tensão e o desespero que a repressão estatal provocava, criou o clima para que crimes ocorressem dentro da colônia japonesa.


A espiral de violência deixou vários mortos e feridos. A organização Shindo Renmei ("Liga dos Caminhos dos Súditos"), uma das diversas agremiações de vitoristas, acabaria sendo o bode expiatório de todos os crimes da época, sendo retratada como uma organização terrorista que teria assassinado 23 pessoas e ferido outras 147. O maniqueísmo decorrente dessa distorção atravessaria gerações. O grupo de Hidaka, inclusive, sequer conhecia pessoas da Shindo Renmei e agiu por iniciativa própria, e não por ordens de algum líder remoto.


Sobre as informações falsas do triunfo nipônico na guerra, elas tinham origem em intenções sombrias. Pessoas manipuladoras e oportunistas no seio da comunidade japonesa criaram narrativas delirantes para incutir na mente dos mais ingênuos a ideia de que o Japão havia vencido os EUA. Com isso, compraram terrenos de japoneses que, iludidos, se prepararam para a chegada de navios japoneses que os levariam de volta para casa. Muitos foram para o porto de Santos, apenas para descobrir que foram enganados e perderam tudo.


Por seus imóveis, os japoneses ludibriados receberam ienes, uma moeda que perdera seu valor devido à derrota do Japão e os deixaria na pobreza. Um golpe absurdamente sujo, cuja identidade dos autores se perdeu nas névoas do tempo, com poucas pessoas que ouviram relatos de fontes primárias e sabem a verdade. Fortunas familiares tiveram origem na exploração de japoneses em cima de seus conterrâneos.


Os homens que enganaram seus próprios conterrâneos nunca tiveram seu castigo e punição, diferente de alguns que cometeram crimes violentos e tantos outros que sequer haviam feito coisa alguma contra qualquer pessoa.


Ruínas do presídio da Ilha Anchieta (SP). Crédito: Aline Resende - Fundação Florestal/ Memorial da Resistência.
Ruínas do presídio da Ilha Anchieta (SP). Crédito: Aline Resende - Fundação Florestal/ Memorial da Resistência.

O destino de Tokuichi Hidaka, seus companheiros e de muitos outros japoneses foi o temido presídio da Ilha Anchieta, no litoral de São Paulo. Entre os 172 japoneses presos registrados lá, uma esmagadora maioria foi enviada sem ter cometido crime algum. As forças estatais, para "testar" o grau de suspeição dos imigrantes que investigavam, colocavam uma bandeira do Japão no chão e pediam que pisassem. Quem se recusava a pisar na bandeira de sua terra natal era preso. Uma vez na Ilha Anchieta, encontraram hostilidade e violência. Alguns, encontraram a morte.


A historia trágica desse presídio foi contada no já citado documentário em vídeo de Mario Jun Okuhara. Mas o filme era apenas a primeira parte da missão de seu produtor. O passo seguinte foi buscar uma justiça histórica, uma reparação sem valores financeiros envolvidos, mas na forma de uma retratação oficial do Estado brasileiro.


Essa luta, cheia de reviravoltas e dificuldades perante a burocracia estatal, é contada no livro 80 Anos Depois - Justiça Histórica dos Imigrantes Japoneses no Brasil.


Capa do livro que registra a saga pelo reconhecimento de injustiças e atrocidades do governo contra japoneses.
Capa do livro que registra a saga pelo reconhecimento de injustiças e atrocidades do governo contra japoneses.

A luta não tinha - e não tem - qualquer conotação ideológica ou partidária, sendo focada no sentimento de preservação da memória, senso de justiça e dignidade dos que sofreram. Foi preciso percorrer gabinetes de políticos até o assunto ser aceito dentro da Comissão da Verdade. Esse era o órgão oficial que poderia analisar e julgar o pedido de retratação oficial do Estado, proposto por Mario Jun Okuhara, com o apoio institucional da Associação Okinawa Kenjin do Brasil, sediada em São Paulo, capital. Foi a entidade okinawana que abraçou o projeto e deu grande suporte ao ativista, depois que órgãos oficiais japoneses preferiram não se envolver na questão.


Criada especificamente para apurar e registrar os abusos e violência do Regime Militar (1964~1985), a Comissão da Verdade tinha um escopo bem definido: o de apurar violações dos direitos humanos somente daquele período histórico. A luta pela justiça aos imigrantes conseguiu reunir argumentação suficiente para que a Comissão aceitasse analisar e julgar os acontecimentos, mas impôs um limite de não abordar o período do Estado Novo. Coisas da política.


Ainda assim, a combinação de bom jornalismo e linguagem jurídica conseguiu deixar claro que os abusos cometidos a partir de 1946 eram simplesmente a continuidade de uma política de repressão que havia se instalado durante durante o Estado Novo e a Segunda Guerra Mundial.


Mario Jun Okuhara, em audiência na Assembléia Legistativa de São Paulo.
Mario Jun Okuhara, em audiência na Assembléia Legistativa de São Paulo.

Após uma longa batalha contra todo tipo de adversidade, em 25 de julho de 2024, aconteceu em Brasília, no Congresso Nacional, o Dia da Retratação, quando o Estado Brasileiro reconheceu os abusos e crueldades praticadas contra imigrantes japoneses inocentes. Por diversas vezes, porém, o destino do projeto parecia ser o esquecimento.


Feita a declaração formal e a publicação, no ano seguinte, do registro em livro sobre o caso, a missão ainda não foi dada por encerrada. A luta ainda iria prosseguir, no intuito de pedir a inclusão dessa história de repressão no currículo escolar brasileiro, através da BNCC - Base Nacional Comum Curricular, o que é outra difícil luta no instável campo da política.


Mario Jun Okuhara, que tem dedicado sua vida a essa missão em prol da preservação da história da imigração japonesa no Brasil, segue em sua jornada.


Nota: O Blog Sushi POP, que se mantém longe de disputas ideológicas, eleitorais e partidárias, apoia essa luta, sem no entanto endossar os políticos e entidades que também apoiarem a proposta. (A.N.)

80 Anos Depois - Justiça Histórica Dos Imigrantes Japoneses do Brasil Autor: Mario Jun Okuhara Capa: Hélio Poszar Prefácio: Ricardo Taira

Lançamento: Editora Paulo´s (2025)

Formato: 14,8 x 21 cm, com 136 páginas


YAMI NO ICHINICHI - O Crime Que Abalou a Colônia Japonesa no Brasil

Roteiro e direção: Mario Jun Okuhara Produção: Imagens do Japão Lançamento: 13/12/2012 Duração: 1h21min


LEIA TAMBÉM:

  • Histórias de família, incluindo o que meu avô passou após a Segunda Guerra Mundial no meio da colônia japonesa.

Representatividade Amarela

  • A questão racial envolvendo descendentes de orientais, a luta por espaços e o problema do vitimismo e do divisionismo, do "nós contra eles" que alguns estão alimentando em redes sociais.

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