O caso Shogakukan: culpa e justiça
- Ale Nagado

- há 4 horas
- 3 min de leitura
Algumas considerações sobre o caso que abalou o mundo do mangá no Japão.

EDITORIAL
Sobre o caso do acobertamento da editora Shogakukan a abusos sexuais de mais de um autor de mangá (relatado no Boletim 154), uma nova informação mereceu destaque recente nas redes socias japonesas, logo se espalhando pelo resto do mundo.
Desta vez, a vítima do abusador Ichiro Hajime (roteirista do mangá Joujin Kamen), se pronunciou, dizendo que as pessoas não devem culpar a editora, pois ela própria é uma leitora de seus mangás e da plataforma Manga One. Ela esclareceu que seu problema é com um autor específico, e que não gostaria de ver outros sendo prejudicados.
Houve um movimento de vários grandes autores saindo da Shogakukan e sendo abraçados por outras editoras concorrentes, mas vários outros, ainda em começo de carreira, ficaram com receio de não terem a mesma acolhida fora, e optaram por não se manifestar com relação a esse caso. O que também não está errado. O problema é que muitas pessoas, em redes sociais, começaram a cobrar posicionamento de outros autores, deixando eles em situação bem delicada.

Fundada em 1922, a Shogakukan é uma das maiores editoras do Japão. No segmento do mangá, publica a revista Shonen Sunday, umas das maiores do mercado. Essa crise deflagrada com o caso de Ichiro Hajime é a mais devastadora já enfrentada pela empresa em seus mais de 100 anos de existência, com autores de renome deixando a empresa e uma condenação pública grande em andamento. Mas isso está respingando em autores que não têm nada a ver com o caso e estão preferindo não se envolver no debate público, sendo que alguns estão sendo cobrados em redes sociais.
É absolutamente injusto prejudicar ou cobrar algo de quem não tem relação com o caso. O que é preciso, isso sim, é condenar as pessoas da editora que agiram para acobertar os abusadores e facilitar a retomada de carreira usando pseudônimo.
Se um CNPJ (empresa, pessoa jurídica) não tem qualquer culpa ou moralidade, certamente cada CPF (pessoa física) diretamente envolvido no caso precisa sim prestar contas do ocorrido. Separar as coisas é importante, para evitar injustiças e evitar prejudicar quem não tem relação alguma com a história, apenas trabalha na mesma empresa onde o problema aconteceu. Os autores que optaram por não se manifestar têm tanto direito de seguir com suas carreiras quanto aqueles que se manifestaram publicamente.

O caso da Shogakukan está muito longe de ser algo isolado no Japão. Na indústria do entretenimento, ficou famoso o caso do empresário Johnny Kitagawa (1931~2019), um grande magnata do J-pop.
Dono da grande corporação chamada Johnny & Associates (atual Smile-Up), ele produzia e gerenciava grupos de idols masculinos, como os famosos SMAP, Kinki Kids, V6 e vários outros. Ao longo de décadas, abusou sexualmente de muitos rapazes (confira o Boletim 80), incluindo menores de idade. A empresa precisou negociar indenizações milionárias a vítimas, mas raríssimos casos vieram a público, pois algumas de suas vítimas se tornaram atores ou cantores de sucesso que temem escândalos. Enquanto isso, Johnny Kitagawa queima no Inferno, é bom lembrar, a despeito de homenagens que recebeu da indústria da música.
A resposta ao silêncio e à conivência que sempre foram comuns no Japão não pode dar lugar a um clima de histeria, perseguição e cancelamentos sem verificação de fontes e sem ouvir todos os lados envolvidos.
O Japão precisa encarar de frente esse problema, mas sem cair no exagero, na destruição de vidas, no patrulhamento ideológico contra quem não quer se envolver (ou levantar bandeiras) e nas agendas políticas, tão presentes nos movimentos ocidentais que lidam com a séria e delicada questão do abuso sexual.
Alexandre Nagado
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