• Ale Nagado

IDOL - Sucesso efêmero, vidas controladas

Música, beleza e idolatria em uma indústria de sonhos e aparências.

AKB48 - Um dos grupos musicais mais populares de todos os tempos.

Termo bem específico da indústria de entretenimento nipônico, idol é um tipo de artista multimídia de beleza destacada e uma vida celibatária, dedicada a seu público. “Ídolo” é uma tradução simplista, pois a visão japonesa do termo implica não apenas uma postura, mas também um leque de opções profissionais no campo do entretenimento de público-alvo majoritariamente masculino.


São artistas jovens, que cantam, dançam, atuam em novelas e séries, fazem voz para personagens de animês, trabalham como modelos, apresentadoras de TV e o que mais puder ser feito explorando sua imagem. As idols são cultuadas pelos fãs como modelos de doçura e graciosidade, uma característica que começou a ganhar força com jovens cantoras na década de 1960, como a dupla Peanuts. A presença de jovens cantoras na mídia foi ganhando cada vez mais força nas décadas seguintes.

Pink Lady

Na década de 1970, cantoras como as integrantes da dupla Pink Lady, do trio Candies ou a jovem estrela Momoe Yamaguchi tiveram uma imagem de sensualidade - e pouca roupa - bastante explorada pelas gravadoras, a despeito desta última ser ainda menor de idade quando começou sua carreira de sucesso.

Geralmente seu biotipo envolve garotas de porte físico pequeno, bem ao gosto médio japonês e suas carreiras são regidas por pesados contratos de imagem e comportamento social. A indústria idol, inicialmente uma subdivisão da indústria musical, projetou muitas belas jovens ao estrelato.


Estrelas de grande voz, como Seiko Matsuda e Akina Nakamori, dividiam espaço com tantas outras que, ao longo do tempo, iam ficando pelo caminho conforme o encanto de garotinha ia passado. Algumas idols, no entanto, conseguiram uma sólida carreira musical, como Yoko Oginome, Wink, Mami Ayukawa e Yoko Minamino.

Sayaka Kanda (à esq.) e a mãe, Seiko Matsuda.

Estrela consagrada e com alguns escândalos sexuais em sua biografia, Seiko Matsuda continuou preservando a pose de idol virginal por décadas. Quando se tornou mãe aos 24 anos, em 1986, inaugurou o termo "mama idol". A filha única de Seiko Matsuda, Sayaka Kanda, seguiu os passos da mãe como cantora e atriz, porém tirou a própria vida no final de 2021, aos 35 anos.


Com uma estrutura própria, o star system japonês influenciou todo o mundo asiático, mais notadamente na Coréia do Sul, com seus astros e estrelas do K-pop, que mesclaram isso a um apelo mais sensual e ocidentalizado no som e nas performances. Com essa visão de mercado, as estrelas do K-pop passam por uma completa remodelação física através de cirurgias, em uma escala aparentemente bem maior do que no Japão.


A influência ocidental causou uma ascensão de modelos com físico mais curvilíneo, mas o gosto médio japonês costuma rejeitar plásticas e implantes muito aparentes. As garotas de olhos grandes costumam fazer mais sucesso, e muitas recorrem a um retoque cirúrgico para aumentar a abertura e fazer dobras nas pálpebras, algo mais raro no biotipo oriental. Ao longo dos anos, a busca pela conquista do mercado aperfeiçoou técnicas e estratégias de marketing.


Em 2005, surgiu o que seria o ápice da indústria idol na música e na mídia, com o extremamente popular grupo AKB48, criação do empresário e letrista Yasushi Akimoto, que já havia emplacado o grupo idol Onyanko Club, bastante popular na década de 1980.

Onyanko Club: Precursoras da fórmula de grandes grupos.

Com o AKB48, cujo nome vem de Akihabara (bairro de Tokyo que é reduto de tecnologia e cultura otaku), dezenas de meninas cantam e dançam em diferentes formações. O grupo tem, na verdade, muito mais que 48 integrantes, pois existem as subdivisões e membros "júnior" em treinamento e que já são apresentadas ao público durante sua preparação.


Uma das estratégias para venda de CDs (um mercado ainda relevante no Japão) do grupo consiste em encontros das idols com seus fãs, nos quais basta comprar uma gravação para conseguir um cupom que dá direito a alguns segundos na frente de uma das garotas, geralmente um rápido cumprimento. No entanto, é possível comprar vários CDs iguais e assim acumular tempo na presença das meninas. Muitos casos de assédios grosseiros já foram registrados, com fãs doentes alisando as mãos das meninas e querendo um contato físico mais afoito.


Com essa jogada, as vendas dos CDs do AKB48 e similares vão às alturas, graças aos fãs que compram CDs repetidos em busca de mais cupons, quase sempre senhores de meia-idade.


Tendo uma grande estrutura de músicos e compositores por trás, o repertório do grupo é interessante por si só, mas com o fator "otaku idólatra" inflacionando as vendas, o AKB48 sozinho já vendeu mais de 45 milhões de gravações em seu país.

AKB48: O ápice do marketing idol.

Logo surgiram novas franquias derivadas da marca, como SKE48, Nogizaka46, HKT48, Keyakizaka46, incluindo grupos similares em outros países, como China, Tailândia e Vietnã, sempre sob a coordenação de Yasushi Akimoto, um dos letristas mais produtivos do mundo e um dos empresários mais poderosos do entretenimento asiático.


O universo de idols sob seu comando se faz presente na publicidade, em catálogos de moda, integrando elencos de filmes, dramas e séries variadas, estampam livros fotográficos e participam de todo tipo de campanha de marketing.


Basicamente, o mercado de idols tem duas fatias de público: os jovens que gostam das músicas e coreografias, e os homens de meia-idade com fetiche por essas meninas. Estes últimos, obviamente, são os que mais gastam dinheiro consumindo tudo relacionado às garotas. E é preciso manter esse público sempre sonhando.


Uma idol geralmente não pode ter relacionamentos amorosos (algo registrado em contratos sigilosos), deve passar sempre uma imagem de pureza intocada, como se fosse a namorada platônica de seus fãs. As letras de muitas canções enfatizam isso, alimentando uma indústria que chega a ser doentia. Essa relação das idols com seus fãs de meia-idade é abordada de maneira crua e contundente no mangá Virgem Depois dos 30 (Ed. Pipoca e Nanquim).


Quando uma típica idol é vista saindo da casa de um homem, geralmente isso vira um escândalo no fandom, com casos recentes em que a artista é obrigada a pedir perdão aos fãs por seu comportamento. Na verdade, ter uma vida social é praticamente uma quebra de contrato perante seus agenciadores, com péssimas consequências para as garotas.

Minami Minegishi

Um dos casos mais famosos é o da ex-integrante do AKB48, Minami Minegishi, que foi vista saindo da casa de seu namorado, também um cantor e dançarino. Ela gravou um vídeo pedindo perdão aos fãs por ter "traído" eles, chorando muito e com o cabelo quase todo raspado.


Muito se especulou na época se ela teria sido forçada a isso, se foi um ato de desespero ao ver que seria demitida da banda (e ver a carreira morrer) ou se tudo foi uma grande jogada de marketing. O fato é que depois do escândalo e das lágrimas, sua carreira prosseguiu normalmente, mas jogou aos olhos do mundo o que é a indústria idol em seus bastidores. Isso ocorreu em 2013 e, mesmo com toda a repercussão internacional, aparentemente nada mudou. Além disso, o modelo japonês de produção, promoção e gerenciamento de idols foi copiado e intensificado na Coréia do Sul, que tem em seus jovens astros do K-pop, uma grande fonte de renda para o país.


Diversos casos sombrios já aconteceram, inclusive com vários registros de suicídios de idols que não suportaram a pressão do estrelato ou o fim da carreira.


Existem os idols masculinos também, mas a pressão sobre eles é bem menor (afinal, são homens em uma sociedade ainda machista como é a japonesa) e suas carreiras são mais longevas do que as das garotas. O mercado das idols também caminha numa linha tênue de exploração sexual da imagem de adolescentes.


O universo das idols inclui as Gravure Idols, que são modelos que posam para fotos sensuais, seja com roupas curtas, lingerie ou trajes de praia. É comum que as mais ousadas, e especialmente as mais velhas, logo caminhem para ensaios de nudez e acabem no mercado de pornografia, que é gigantesco no Japão.

A gravure idol Ayaka Komatsu, na faixa dos 30 anos.

E transitando em um meio perigosamente próximo à pedofilia, existem as Junior Idols, geralmente meninas entre 12 e 15 anos, modelos e algumas vezes até cantoras, que já posam para livros e vídeos em trajes de banho. A sociedade japonesa já permitiu, inclusive, venda de livros de nudez adolescente livremente, mas a prática foi proibida devido, principalmente, às críticas do ocidente.


Com várias subdivisões, subgrupos e classificações, bem como as biografias, medidas e gostos de cada integrante, a vida dos fãs otaku gira em torno de estudar detalhadamente e cultuar um universo de entretenimento com muito mais idols do que monstrinhos Pokémon. Também é comum que integrantes transitem de uma banda para outra em uma mesma gravadora ou agência.


Para essas jovens operárias do entretenimento, existe também um certo limite de idade, por volta dos vinte e poucos anos, para que uma idol seja “graduada”, deixando o grupo e partindo para carreira musical solo ou para se tornar uma atriz ou artista madura.


O mundo das idols é bastante referenciado na cultura pop, pois elas são presença bastante forte na mídia e no imaginário nacional japonês.


A obra mais contundente a lidar com o fenômeno idol e seu lado negro talvez seja Perfect Blue (1997), aclamado filme em animê de Satoshi Kon (1963~2010). Além disso, no episódio 39 de Kamen Rider BLACK (1987), uma idol a serviço da seita Gorgom faz lavagem cerebral em seus fãs, mostrando o perigo da idolatria na mídia.

Perfect Blue, filme de Satoshi Kon sobre o lado sombrio do universo idol.

Para muitas garotas, porém, essa graduação acaba sendo um eufemismo para a aposentadoria de um mundo de sonhos - ou uma máquina de moer gente - que está em constante renovação.


Ao se graduar, geralmente a garota anuncia que vai se dedicar à atividade de atriz, cantora ou aos estudos. Algumas, porém, não conseguem se manter e acabam caindo no mercado de filmes pornográficos para conseguir dinheiro. No geral, a maioria das ex-idols acaba se tornando um rosto a mais na multidão, com muitas se casando e se tornando mães e donas-de-casa.


A indústria idol é uma fábrica de sonhos e aparências, com um lado sombrio que contrasta com a aparência angelical exigida de suas estrelas. Sejam elas movidas por desejo de ascensão social, ambição financeira ou sinceras aspirações artísticas de fazer carreira na música ou nas artes cênicas, as idols são o produto de uma indústria de aparências que trata pessoas como objetos catalogáveis e descartáveis.

Catálogo de moda do AKB48. Certamente ninguém comprou para escolher peças de vestuário.

Leia também:

- O suicídio na cultura japonesa


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