• Ale Nagado

Metalder - O Homem-Máquina

Uma série diferenciada em seu tempo, com um olhar mais maduro.

Entre o final da década de 1980 e início da de 90, as emissoras brasileiras foram invadidas por uma avalanche de super-heróis japoneses de tokusatsu, tudo graças ao sucesso estrondoso de Jaspion e Changeman. Lançados primeiro em fitas VHS pela Everest Vídeo em 1988, as séries chegaram posteriormente à TV Manchete e detonaram uma verdadeira mania de produções nas emissoras brasileiras.


Obras anteriores e posteriores a essas séries pipocaram em quase todos os canais e a saturação acabou cansando o público em geral, ao passo que formou uma legião de fãs saudosos. Entre tantas outras, uma série que se tornou cult mas não foi um sucesso de audiência foi Metalder, um projeto arrojado e cheio de qualidades.


INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL


A série conta a saga de um poderoso androide construído na Segunda Guerra Mundial como uma arma destruidora. Sem ser ativado devido à derrota e rendição japonesa em 1945, o guerreiro metálico foi abandonado. Quarenta e dois anos depois, ele é finalmente ativado por seu criador, o Dr. Ryuichiro Koga, a fim de combater o maligno Império Neroz e seus planos de dominação mundial.


Liderada pelo grande empresário Makoto Doubara, alter ego do Imperador Neroz, a organização é um exército que usa de terrorismo para prejudicar ou eliminar concorrentes no mundo dos negócios. No original, ele se denomina God Neroz, o que dá uma dimensão de sua megalomania. Mas ele não é um fanfarrão como tantos vilões, e sim um empresário frio e calculista que usa seus assassinos e seu dinheiro para manipular acontecimentos agindo nas sombras. De certa forma, ele já se sente o dono de parte do mundo, e sua maior preocupação é destruir Metalder, cujo poder ameaça seus planos gananciosos.


O Império possui quatro subdivisões: as Tropas Monster, Cibernética, Mekanol e Blindada. Ao ser alertado sobre a movimentação de Koga, que conhecia há muito tempo, Neroz manda seus soldados atrás do cientista.

Tendo despertado confuso, o andróide de aparência humana Hideki Kondo (chamado de Ryusei Tsurugi, no original) vê seu criador morto entre soldados de Neroz. Então, assume sua forma robótica de combate e trava feroz batalha contra os vilões, sofrendo sua primeira derrota, pelas mãos do Comandante Arthur, líder da Tropa Blindada e braço direito de Neroz. Conseguindo escapar, vai tentando se adaptar ao mundo que o cerca, cheio de dúvidas e perplexidade.


Conforme aprende a controlar sua força, Metalder se torna um rival que todos os guerreiros de Neroz sonham em desafiar um dia. Com socos e chutes poderosos, seu golpe supremo é o Punho Titânico, no qual seu antebraço direito fica energizado para desferir um corte fatal no inimigo.


Hideki fora criado com os padrões físicos e psicológicos do falecido filho do Dr. Koga, herdando também habilidades musicais. Em certos pontos da série, Hideki questiona-se sobre sua identidade e individualidade.

Maya, capaz de arrasar corações humanos e cibernéticos

Pouco depois de seu árduo despertar, ele conhece a bela repórter fotográfica Maya Aoki (Mai Ougi, no original), uma jovem encantadora que trabalha em uma editora. Com seu jeito nobre e atencioso, o androide desperta o amor de Maya, que logo passa a ajudá-lo nas investigações sobre as atividades ilegais do Império Neroz. A eles, junta-se o impetuoso motociclista profissional Satoru (no original, Hakkou Kita), que vê Hideki como um amigo fiel, mas também um rival pelo coração de Maya. O pai de Maya, Shingo, que é um repórter de carreira internacional, também se junta a eles ao longo da trama, investigando as atividades de Neroz.

Hideki e Satoru.

Na luta contra o Império, Metalder conta com a ajuda das sofisticadas criações do Dr. Koga, inclusive Springer, um cão doberman-robô falante e auxiliar do herói em sua base secreta. Nas batalhas que se seguem, alguns soldados de Neroz rebelam-se contra o mestre, com destaque para o poderoso Top Gunder. Dotado de grande força e armado com um rifle especial, Top Gunder se torna o grande aliado do herói.


Não são poucos os inimigos honrados que Metalder encontra nas fileiras de Neroz, que lutam à moda dos antigos samurais, rendendo histórias e batalhas memoráveis.

Com o aliado Top Gunder.

Cheia de reviravoltas, a série termina com o sacrifício do herói, que mata o Imperador Neroz, mas sua vitória tem um alto preço. Com seu Dispositivo Gravitacional danificado e prestes a explodir, o que devastaria o país, Metalder pede a Satoru que, empunhando a espada de Arthur, destrua o dispositivo, que fica em seu cinto. Ele avisa que irá morrer, mas que não há alternativa. Satoru pega e espada e faz o que deve ser feito, para desespero de Maya.


Um grande clarão de energia se segue, e quando Satoru e Maya conseguem se recompor, veem Metalder longe, caminhando com Springer a seu lado, até desaparecer. O final, bastante emotivo e poético, renderia debates entre fãs por anos.


A sensibilidade que conduziu a série se manteve até o final, sem perder suas características, o que é considerável ainda mais se lembrarmos que a audiência foi modesta (média de 8,2%) e o número de episódios planejado foi diminuído, para acelerar logo a estreia de Jiraiya, a série criada para substituir Metalder na programação da TV Asahi.

NOTAS DE BASTIDORES


O design de Metalder foi encomendado para prestar homenagem ao clássico Kikaider, criado por Shotaro Ishinomori (1938~1998) para um mangá e série tokusatsu em 1972. Personagem famoso, teve diferentes adaptações ao longo do tempo, incluindo versões em animê entre 2000 e 2003 e reboot em tokusatsu em 2014. Mas longe de ser apenas uma cópia ou homenagem, Metalder tem suas características próprias e uma atmosfera única.

O Kikaider original do tokusatsu, do mangá e do reboot.

A série de Metalder teve um planejamento diferenciado. Logo de cara, um grande exército, com quatro subdivisões, é apresentado. O clima é dramático sem ser depressivo, e a série traz uma visão de mundo otimista que se sobressai entre as trevas. A expectativa era alta, mas o teor muito sério afastou o público mais infantil. A série era exibida às segundas-feiras, no horário das 19h00. Com a audiência e venda de brinquedos aquém do esperado, os produtores optaram por mudar a série na grade de programação da TV Asahi, transferindo a série para domingo, às 9h30, do episódio 25 até o final.


Como acontece normalmente, desde muitas produções antes, devido à parceria entre a Toei e a emissora TV Asahi, esta sempre indica produtores para trabalhar junto com os produtores da Toei. Um desses executivos, Yuuyake Usui, saiu após o episódio 4. Outro produtor, Akira Koseki, ficou até a mudança de horário do episódio 25, quando foi substituído por Kyozo Utsunomiya. Os produtores da Toei, no entanto, permaneceram os mesmos do começo ao fim da série. Mesmo assim, Metalder ainda teve um episódio especial para cinema, exibido em uma edição do Manga Matsuri (Festival do Mangá), evento da Toei em 1987.

Com a moto Side Phantom

Como parte dos esforços para tornar a série mais leve e divertida e assim melhorar o aspecto comercial, introduziram um novo personagem, vivido por um ator já bem conhecido do público. No episódio 16, entra em cena o motoqueiro falastrão e boa-praça Satoru, vivido pelo ator Hiroshi Kawai (atualmente assinando Kazuoki Takahashi, seu nome verdadeiro), o Change Griphon do grande sucesso Changeman.


Nos episódios 25 e 26, Satoru apresenta uma turma de amigos, interpretados por grandes veteranos da ação: Kenji Ohba (Battle Kenya em Battle Fever J/ Denziblue em Denziman / Gavan), Junichi Haruta (MacGaren em Jaspion/ Goggle Black em Goggle V), Hiroshi Watari (Boomerman em Jaspion/ Sharivan/ Spielvan), Kazuyoshi Yamada (suit actor em muitas séries, inclusive em Metalder), Makoto Sumikawa (Diana em Spielvan/ Reiko em Kamen Rider BLACK RX) e Sumiko Tanaka (Yellow Four [2] em Bioman).


Na trilha sonora, destaque para o brilhante compositor Seiji Yokoyama (1935~2017), autor também das músicas de fundo de Cavaleiros do Zodíaco (1986). Parte da trilha composta para Metalder foi reaproveitada em Winspector (1990), com sua autorização e encomenda de mais músicas de fundo. As canções foram criadas por outros compositores, que fizeram um trabalho igualmente brilhante (confira nos extras).

As tropas de Neroz.

A música-tema, "Kimi no seishun wa kagayaiteiruka" (ou "Sua juventude brilha como o Sol") foi entoada em tom grandioso por Isao Sasaki, o mesmo intérprete da canção-tema do clássico Patrulha Estelar (Yamato). O encerramento, "Time Limit", ficou com Ichirou Mizuki, cantor de Spielvan, Capitão Harlock e fundador do grupo JAM Project.


A série foi trazida ao Brasil pela Tikara Filmes, originalmente chamada de Everest Vídeo, a empresa que detonou o boom do tokusatsu no Brasil ao trazer Jaspion e Changeman em 1988. Metalder foi exibido na Band, que comprou a série da Tikara, que por sua vez acabou não conseguindo licenciar produtos. O Homem-Máquina somente apareceu em duas páginas do álbum de figurinhas Jaspion 2 - Spielvan, lançado em 1992 pela Editora Abril.


Em 1994, Metalder foi adaptado nos Estados Unidos e editado junto com a série Spielvan (e posteriormente, Sheider) como parte do seriado VR Troopers. Nesta medonha versão, o herói foi rebatizado de Ryan Steele e descaracterizou-se por completo.


Felizmente, o público brasileiro pôde ver a série original de maneira completa antes que Troopers fosse exibido na Globo. Metalder permanece até hoje como uma obra diferenciada e à frente de seu tempo.


FICHA TÉCNICA:

Título original: Chou Jinki Metalder ~ 超人機メタルダー Estreia no Japão: 16 de março de 1987 Número de episódios: 39

Criação: Saburo Yatsude Roteiro: Susumu Takaku, Shozo Uehara e outros Character design: Keita Amemiya, Yasuhiro Moriki e outros Trilha sonora: Seiji Yokoyama Direção: Yoshiji Tomita, Takeshi Osasawara, Tetsuji Mitsumura e outros

Produtores: Yuuyake Usui, Akira Koseki e Kyozo Utsunomiya (TV Asahi), com Susumu Yoshikawa, Itaru Orita e Jun Hikasa (Toei) Realização: TV Asahi, Toei Company / Asahi Tsushinsha (ASATSU) Emissora no Brasil: Band

Versão brasileira: Álamo


ELENCO:


Hideki Kondo: Seikoh Senoo

Maya Aoki: Hiroko Aota

Satoru Kita: Kazuoki Takahashi

Springer: German

Springer (voz): Genpei Hayashiya

Makoto Doubara: Shinji Todoh

Imperador Neroz (voz): Takeshi Watabe

Shingo Aoki: Hiroshi Arikawa Secretária K: Yuuko Mitsui

Secretária S: Emiko Yamamoto Dr. Koga: Ken Uehara

Metalder (voz): Michiro Iida Metalder (suit actor): Kazuyoshi Yamada, Noriaki Kaneda

Top Gunder (suit actor): Makoto Kenmochi

Narrador: Issei Masamune Dublês e suit actors: Japan Action Club


::: E X T R A S :::


1) Kimi no seishun wa kagayaiteiruka (ou "Sua juventude brilha como o Sol") ~ Tema de abertura

Letra: James Miki / Melodia: Takashi Miki / Arranjo original: Kouhei Tanaka

Intérprete: Isao Sasaki

2) Time Limit - Tema de encerramento

Letra: James Miki / Melodia: Takashi Miki / Arranjo: Kouhei Tanaka

Intérprete: Ichirou Mizuki


3) Romantic Kaidou ("Rodovia romântica")

Letra: Masao Urino / Melodia: Daisuke Inoue

Intérprete: Hiroko Aota

- Raro vídeo com Hiroko Aota em seu breve período como cantora idol, muito antes de Metalder. Ela tinha 18 anos na época, e sua voz infantil casava bem com o estilo de música pop cantada pelas idols. Lançou somente dois singles e um álbum, tudo em 1984, época em que foi a alguns programas de TV. Teve algum sucesso, mas cantar não era sua praia. Nem precisava.


Saiba mais:


- Entrevista com o ator Seikoh Senoo (Nipo Heroes Blog, 2014)

- Metal Hero: Tecnologia e ação


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