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Música Japonesa Nos Tempos Da Fita Cassete

A difícil - e divertida - tarefa de garimpar trilhas sonoras antes da internet.

Um típico aparelho de som portátil dos anos 1990.

O advento da internet trouxe muitas facilidades, como o acesso à produção cultural de várias partes do mundo. No campo da cultura pop japonesa, a oferta de material na web é gigantesca, mas antigamente tudo era mais complicado de se obter. É sobre esse tempo que vou comentar um pouco, especificamente no que se refere à música japonesa.


Quem nasceu conectado, se acostumou a baixar vídeos, músicas e a encontrar tudo o que se deseja com alguns cliques. Por isso, pode ser difícil imaginar a vida do fã de alguma coisa então obscura há mais de 30 anos.


Nos anos 80 e 90, encontrar músicas japonesas fora do circuito então bastante fechado da colônia japonesa, era tarefa difícil. Com a predominância das tradicionais canções enka entre os imigrantes e seus descendentes, música pop já era algo difícil de conseguir. Temas de desenhos e seriados (as anime songs ou anisongs), então, era algo impensável.


Em casa, havia um velho toca-fitas que tinha um plugue que, além de conectar em vitrolas, encaixava na entrada para fone de ouvido que havia na TV da minha casa. Ou seja, eu conseguia gravar em fita cassete o áudio que saía da TV. Daí eu fazia uma operação rocambolesca: alugava fitas VHS japonesas na locadora da Casa Ono de Pinheiros (bairro da zona oeste de SP, capital, onde eu morava). Depois de plugar os aparelhos, dava “pause” na fita VHS quando chegava no ponto em que eu queria começar a gravar e depois clicava no “rec” do toca-fitas ao mesmo tempo em que dava "play" no videocassete. E ficava atento para dar "pause" no momento exato, pra gravação cortar no ponto certo. Gravei muitas aberturas e encerramentos de séries dessa forma, bem como áudios de clipes musicais que encontrava. Na verdade, qualquer jovem dos anos 80 passou pela experiência de ficar esperando tocar suas músicas favoritas no rádio para gravar suas fitas, com o adicional de torcer para que a música tocasse inteira sem o locutor falando. No entanto, a vida dos fãs de músicas mais obscuras, como trilhas sonoras e bandas japonesas, era bem mais complicada.

Uma fita como dezenas de outras gravadas de modo caseiro.

Além de copiar músicas a partir de fitas VHS, eu também extraía algumas coisas direto da programação da TV. Eu assistia os programas Imagens do Japão e Japan Pop Show e conseguia gravar algumas apresentações musicais que eram mostradas, especialmente do grande show Koohaku Utagasen, que o Imagens do Japão sempre transmitia na véspera do Ano-Novo. Lembro de descobrir nesses programas de TV da colônia japonesa, artistas como Seiko Matsuda, Anri, The Checkers e Wink, cujo som me agradava muito (gosto até hoje). Tudo era analógico e com algum chiado, claro, mas era assim que eu gravava músicas japonesas e temas de abertura. Lembro de ficar empolgado conseguindo esse tipo de material. Depois, ainda ficava criando minhas próprias “playlists” copiando as músicas de umas fitas para outras e criando diferentes seleções musicais. Um outro hábito que toda a geração daquela época cultivava era usar uma caneta Bic para rebobinar a fita manualmente.


Por volta do final dos anos 80, eu já frequentava exibições de animê de fãs, como as exibições do grupo ORCADE (Organização Cultural de Animação e Desenho - nome pomposo, mas era uma turma de fãs de mangá e animê), no Centro Cultural São Paulo, na Rua Vergueiro. Foi lá que comprei de colecionadores minhas primeiras fitas cassete com trilhas sonoras japonesas. A maioria dessas trilhas era de produções desconhecidas para mim na época. Mas eu gostava da sonoridade e comprei algumas fitas.


Com o tempo, comecei a trocar material com outros colecionadores. Às vezes, era cópia de algum LP (os hoje raros e reverenciados “bolachões”) que algum parente do colecionador tinha comprado no Japão, cópia de outra fita cassete ou, raramente, cópia de algum CD, lembrando que essa mídia digital começou a se espalhar somente no final da década de 1980.

Já na década de 1990 eu me habituaria a comprar CDs originais japoneses, que eu encontrava na loja de importados Haikai, que existe até hoje no bairro da Liberdade. Puxando de CDs que eu comprava ou até alugava em locadoras especializadas, eu faria coletâneas melhores em fitas cassete do tipo chrome, de maior qualidade, muito antes dos gravadores de CD. Quem só ouve música que baixa de graça na web e enjoa rápido do que tem, jamais saberá a sensação que tínhamos naquela época, ao encontrar raridades. Era diferente, muito mais limitado, demorado e com um ar de novidade.


Quem pegou a época de ficar pausando fita no ponto para gravar e ficar torcendo para a música caber quando ia chegando no final, sabe a sensação que só posso descrever aqui. Era uma animação, misturada com um certo frio na barriga. Não tenho saudades, mas é extremamente divertido relembrar essas coisas com quem viveu a época. E se era difícil conseguir anime songs na época, adquirir material editorial relacionado era ainda mais complicado.


Por volta de 1990, eu estava revirando algum sebo de quadrinhos no centro de SP (capital) em busca de algo interessante. E encontrei o pequeno livreto cuja capa, cuidadosamente remendada ao longo dos anos, chamou a atenção pelo tema apresentado.


Com formato de 18 x 21 cm e 66 páginas, tinha as primeiras coloridas em papel couché e o restante em p/b em papel jornal. Era a edição de agosto de 1987 de Sing Songs, um encarte da revista Animage (Ed. Tokuma Shoten), tradicional publicação sobre o universo dos animês e afins.

Uma revista raríssima, toda dedicada às anime songs.

Eu sabia quase nada sobre trilhas sonoras, conhecia pouca coisa além do que havia passado no Brasil e nem sonhava em escrever um dia sobre o assunto. Encontrar por acaso uma publicação sobre anime songs (definição que eu desconhecia até então) foi muito legal, deu uma sensação de ter descoberto um pequeno tesouro perdido em um sebo que não era de revistas japonesas.


Algumas das músicas destacadas lá eu já tinha ou viria a conseguir depois, mas não sabia sequer ler as letras para acompanhar as canções ou mesmo entender os créditos das músicas. O destaque eram os temas de séries da temporada, como Zillion, Metalder, Maskman, Orange Road, City Hunter, Sukeban Deka, Esper Mami, Hokuto no Ken e outros, cada um ocupando uma página com a letra da música. E havia fotos dos cantores e até um ranking com as 100 anisongs favoritas de público na época, mais um guia de acordes para violão e guitarra, já que todas as letras eram acompanhadas de cifras.


Conforme mencionado, o livreto era encarte de uma outra revista e não poderia estar sendo vendido separadamente. Porém, eu não liguei pra isso, até porque estava com um preço bem camarada. Sem referencial de preço (pois o livro era brinde), o dono do sebo chutou um valor baixo, já que provavelmente ia ser difícil vender um livrinho com letras de músicas quase desconhecidas no Brasil. Mas para mim, naquela época, eu estava comprando uma pequena raridade, que guardo até hoje, mesmo essa publicação já estar começando a se desfazer por conta do papel de baixa qualidade.

Eu aprecio as facilidades do streaming, mas há uma certa nostalgia calorosa que só entende quem se divertia garimpando e encontrando coisas que gostava, entre raridades e produtos obscuros para o grande público. Conseguir o material, às vezes se deslocando pela cidade, era parte fundamental da diversão.


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