• Ale Nagado

Nomes de personagens, suas origens e adaptações

As curiosas adaptações de nomes de personagens japoneses para o alfabeto ocidental.

O Esquadrão Secreto Gorenger.

Personagens japoneses são criados no contexto de um idioma que possui uma estrutura de escrita totalmente diferente da ocidental. O idioma japonês, convém frisar, possui três alfabetos. O primeiro que é ensinado é o hiraganá, que é silábico e representa fonemas. O segundo alfabeto, que também é silábico e fonético, é o katakaná, usado para transcrever nomes e termos ocidentais. O terceiro, mais complexo, é o kanji, que consiste em ideogramas de leitura variável conforme suas combinações e finalidades. Vale ressaltar que na escrita japonesa, diferente da ocidental, cada traço que forma uma letra tem sua ordem e formato, e isso qualquer estudante aprende logo no início. Então, não basta decorar tabelas.


O alfabeto katakaná, conforme explicado, é usado para representar nomes e termos estrangeiros, mas, na cultura pop, no entanto, vários títulos de nomes japoneses já foram, por opção estética, grafados em katakaná, como no caso de AKIRA (アキラ) e YAMATO (ヤマト).


Quando são exportados para o ocidente, os nomes de obras e personagens precisam ser traduzidos e adaptados ao alfabeto latino ou romano. O processo é chamado de romanização, ou transliteração para romaji, que é como são chamadas pelos japoneses as letras ocidentais que usamos. E o que poderia ser algo simples e objetivo, tem criado interpretações errôneas e contraditórias ao longo do tempo.

Vamos ver o caso da primeira equipe da franquia Super Sentai, o Esquadrão Secreto Gorenger, de 1975. O nome vem da junção do número 5 em japonês ("gô"), com o termo anglófono "ranger". Se pegarmos o nome original com grafia japonesa, ゴレンジャー, a leitura e transcrição é "Gorenjaa", conforme indica o internacionalmente aceito Método Hepburn. Se considerarmos a intenção original do nome, é "Goranger", que também pode ser grafado "Go Ranger". Esta última talvez fosse a forma mais correta para romanizar o nome, ou seja, adaptar para o alfabeto ocidental, ou romano. Porém, a grafia usada nos veículos da equipe é "Gorenger", algo orientado para a pronúncia, e não para a grafia correta. Com isso, a forma escrita Gorenger é vista como oficial por aparecer na série, mesmo que esteja incorreta.

Em um livro oficial de Super Sentai, aparece a grafia GORANGER, mas na série aparecia GORENGER

A grafia "Gorenger" consegue estar errada tanto gramaticalmente quanto do ponto de vista de um padrão de romanização. Já as equipes posteriores tem o "ranger" escrito com "a" mesmo, como Turboranger, Ohranger e outros. Para complicar, não são poucas as referências japonesas que usam a grafia Goranger. Em 1993, foi editado um livro oficial de Super Sentai da coleção Terebi Magazine que mostra claramente, no capítulo destinado ao grupo pioneiro, a grafia Goranger, conforme mostra a figura ao lado.


Casos curiosos acontecem quando personagens japoneses têm nomes que homenageiam personalidades ocidentais.

Falemos agora sobre o Policial do Espaço Gavan (1982), que teve o nome em homenagem ao sobrenome do ator francês Jean Gabin (1904~1976). Adaptado ao modo japonês, a escrita ギャバン tem a leitura "Guiabân", (com o "gui" de "guitarra") e algumas referências mostravam a forma escrita Gyaban. Na série original, dublada para exibição na TV Globo como Space Cop, chamavam o herói de Gaban, que é totalmente coerente com a intenção original. Porém, antes da série dele ser exibida, o personagem apareceu em alguns episódios de Sharivan, que passou no Brasil antes do Space Cop. E lá chamavam o Gavan de Gyaban, pois as sílabas começadas com "V" e "B" eram sempre representadas como "B". No caso de Gavin, o "ban" foi substituído por "van", como se a intenção original do nome fosse a leitura "Gavan", e não Gaban. Inclusive, há referências ao ator francês que o chamam de Jean Gavin, mas o sobrenome correto é mesmo Gabin. Então, qual nome é oficial de Gavan/Gaban/Gyaban? Todos, já que todos apareceram em material licenciado oficialmente! E sim, tenho preferido a grafia romanizada Gavan, mas todas as outras também estão corretas, depende do ponto de vista ou referência.

Sharivan, Gavan e Shaider: Homenagens a celebridades ocidentais.

Vamos ver agora o caso de Sharivan (de 1983), um dos Metal Heroes mais conhecidos no Brasil. Se ouvir bem o tema original cantado por Akira Kushida, não há dúvida alguma que ele diz "Shariban", cuja grafia é シャリバン. Isso porque originalmente não existia letra "V" no alfabeto japonês. Mas a intenção sempre foi Sharivan, que neste caso é a única forma existente e aceita. Diz o produtor Susumu Yoshikawa (1935~2020) que Sharivan vem de "Shine" + "Van", o que não faz muito sentido. Mas na época da série, foi publicada em uma série de cards a informação de que Sharivan era uma homenagem a Ed Sullivan (1901~1974), o apresentador de TV que mostrou os Beatles ao público americano. Parece que alguém tentou dar sua versão pessoal sobre o nome, em detrimento de outra.


Já o último dos policiais do espaço originais teve seu nome em homenagem ao ator americano Roy Scheider (1932~2008). Para facilitar, a escrita oficial foi novamente orientada pela pronúncia, ficando como Shaider, com a grafia "Sheider" sendo usada algumas vezes também.


Sobre as grafias em japonês, somente na década de 1990 é que foi adotada, informalmente, uma grafia para as sílabas começadas com "V". Assim, o animê Evangelion (1995) foi grafado originalmente como ヴァンゲリオン, e não バンゲリオン, que daria a leitura de "Ebanguerion". Lembrando que o "L" ainda não tem um símbolo gráfico próprio em japonês, tendo sempre como similar o som de "r" (como em "arara"). Ainda assim, foi lido aqui de forma meio "abrasileirada" tendo o "ge" de Evangelion lido como em "Evangelho".

Sylvie Vartan, entrando na brincadeira ao lado de Baltan.

Um nome bem mais antigo e icônico é o do monstro Baltan, inimigo do primeiro Ultraman (1966). O nome original é Vartan, uma alusão ao sobrenome da cantora francesa Sylvie Vartan, sucesso mundial nos anos 1960. Grafado à moda japonesa como バルタン (leia "Barutan"), o personagem foi adaptado nos EUA como Baltan, provavelmente porque os tradutores desconheciam a origem do nome. Esse nome pegou e até materiais de referência japoneses ou produtos de merchandising usam Baltan, tanto quanto Vartan.


Falando em Ultraman, ele sempre é grafado como um nome único, ao invés de Ultra Man, mas muitas divulgações ocidentais mais antigas (como no Brasil e nos EUA) já usaram a grafia Ultra Man. Já o Ultra Seven (1967) é também escrito em várias referências como Ultraseven. Há um livro comemorativo da Tsuburaya Pro que mostra a grafia ULTRASEVEN na capa e, internamente, como Ultra Seven. A capa da Blu-ray Box do herói traz a inscrição ULTRASEVEN. Aparentemente, as duas formas são aceitas. A mesma empresa chama a forma final de seu Ultraman Nexus (2004) como Ultraman Noa ou Ultraman Noah na mesma embalagem de action figure.

ULTRASEVEN ou ULTRA SEVEN? Aparentemente tanto faz, segundo a Tsuburaya Producitions.

Claro que sempre é preferível escrever o nome correto oficial (ou o mais próximo possível), mesmo que soe estranho ou tenha sido romanizado erraticamente. Mas não se pode ser radical demais, pois em muitos casos, os próprios japoneses se mostram ou indecisos ou abertos a formas diferentes de se escrever o nome de um mesmo personagem. Por isso, não vale a pena tentar ser muito purista nesses casos. Com relação a nomes de personagens humanos, assim como nomes de atores, é válido considerar somente uma forma correta, respeitando o idioma japonês ao máximo.


Um exemplo é o nome original da forma humana do herói Metalder (1987), chamado Ryuusei Tsurugi (Hideki Kondo foi só no Brasil). Neste caso, a leitura correta é Riussei (com o "Ri" igual ao de "Maria") Tsurugui (com "gui" igual a "guitarra"). Mas aqui no Brasil é mais complicado falar do jeito certo, tanto que o herói Change Dragon (em Changeman, de 1985) era chamado de Tsuruji (ao invés de Tsurugi, como o Metalder) na dublagem brasileira. Nomes japoneses, especialmente por grafarem primeiro o sobrenome e depois o nome, já criaram muita confusão em adaptações para o ocidente.

Change Dragon, alter ego de Ryu Tsurugi, ou Tsuruji Irio.

O desconhecimento dos padrões oficiais de romanização também levou muita gente, no início da imprensa especializada, a ler o termo "anime" como paroxítona, sendo que o mais correto seria pronunciar "animê" (forma usada neste blog), como palavra oxítona. Isso porque o Método Hepburn não utiliza acentos, confundindo muita gente no Brasil. Hoje, com a repetição do erro por formadores de opinião, a forma "anime" como paroxítona virou o padrão brasileiro. E se a grande maioria fala, não há o que se discutir, pois a língua é um instrumento dinâmico e regionalismos criam neologismos, novas palavras. Assim, devemos considerar que, em alguns casos, mais de uma forma de escrita pode ser aceita sem que se cometa uma gafe imperdoável. O licenciamento pode ter vários caminhos para aceitação de formas diferentes de um mesmo nome. Os próprios japoneses têm dificuldades em definir padronizações de escrita ocidental para os nomes de seus personagens, muitas vezes cometendo erros e equívocos. Enfim, toda essa discussão é pertinente do ponto de vista da catalogação e registro de personagens e produções, mas deve ser vista com a devida cautela, pois não é uma ciência exata.


[Nota: Este blog não utiliza à risca o Método Hepburn. Como estamos no Brasil, o uso de acentuação ajuda a deixar a romanização mais clara e com a pronúncia mais próxima da intenção original.]


Saiba mais: Alfabeto japonês (página do método KUMON)


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