• Ale Nagado

Tetsuo Kinjo: Escritor de Ultraman e Ultra Seven

A curta e intensa vida de um gênio das séries tokusatsu.

Tetsuo Kinjo, gênio da Tsuburaya Pro.

Na criativa e efervescente década de 1960, a Tsuburaya Production era um grande núcleo de talentos. Sob o comando do lendário diretor Eiji Tsuburaya (1901~1970), diversos profissionais foram organizados para criar séries que se tornaram ícones da ficção científica e dos efeitos especiais japoneses, como Ultra Q (1966), Ultraman (1966) e Ultra Seven (1967). Nelas foram lançadas as bases para o tokusatsu (produção com efeitos especiais) feito para TV, com fórmulas usadas até hoje.


Além da equipe de produção e atores, grande parte do mérito deve ser creditada, com justiça, aos roteiristas, esses profissionais normalmente afastados dos holofotes e com pouco reconhecimento, mesmo entre os fãs.


Em uma equipe de escritores que se tornariam profissionais renomados, como Shozo Uehara (1937~2020), Mamoru Sasaki (1936~2006) e Shinichi Ichikawa (1941~2011), havia um que já era aclamado por seus pares como um talento incontestável: Tetsuo Kinjô (ou Kinjyo).


Nascido em Okinawa em 5 de julho de 1938, o roteirista Tetsuo Kinjô trabalhou nos primórdios do estúdio; tendo escrito, sozinho ou em parceria com outro autor, roteiros para Ultra Q (12 eps.) e Ultraman (14 eps.), chegando ao seu auge criativo com Ultra Seven (14 eps.). Também teve uma pequena participação em Booska, o monstrinho, série infantil feita simultaneamente a Ultraman.

Alien Mephilas
Alien Mephilas, rival do Ultraman original.

Em Ultraman, é coautor do primeiro episódio, além de outros antológicos, como o número 33 ("A palavra proibida"), que trouxe o maligno estrategista Alien Mephilas e o fatídico episódio 39 ("Adeus, Ultraman"), com o final do seriado. Encerrando com ousadia, o roteiro fez o herói ser vencido por um monstro que se tornaria icônico, o Dinossauro Espacial Zetton. Nesse episódio, Kinjo também apresentou Zoffy (que na época nem tinha nome), o segundo Ultra a ser apresentado ao público.


Em Ultra Seven, escreveu os primeiros 4 episódios, dando o tom da série, que era mais voltada à ficção científica e drama em relação a Ultraman. Apesar de ter escrito tantos episódios para Ultraman quanto para Seven, foi este último que fez sua fama atravessar gerações. Vale citar, entre outros, o episódio duplo (14 e 15), que apresentou o poderoso robô gigante King Joe, cujo nome é uma brincadeira que fez com seu próprio sobrenome (Kinjô/ King Joe).

Ultra Seven vs King Joe
Ultra Seven e King Joe, na revanche contada em Ultra Seven 1999.

O apoteótico final em duas partes ("A Grande Invasão") também foi escrito pelo talentoso okinawano, que criou nele alguns dos mais épicos momentos das séries Ultras, como a revelação do segredo de Dan Moroboshi para Anne ou a dramática e solene partida de Seven da Terra.


A série de ficção científica Mighty Jack também teve um episódio (o de número 10) escrito por Kinjô, na época um dos homens de confiança de Eiji Tsuburaya. Lançada em 1968, Mighty Jack contava as aventuras da tripulação de um avançado e poderoso submarino voador e foi uma tentativa de dar um tom ainda mais sério ao tokusatsu para TV.

Mighty Jack
Mighty Jack, aclamada série de ficção cientifica.

Mighty Jack tinha episódios de quase uma hora de duração e durou 13 aventuras, com Kinjo assinando o episódio 10. Em seguida, estreou a segunda temporada, a Tatakae! Mighty Jack (Lute! Mighty Jack), com um tom mais leve e que durou 26 episódios, com Kinjô escrevendo (sozinho ou em parceria) seis deles.


Em 1968, Kinjô também roteirizou dois episódios para Kaiki Daisakusen ("Operação Mistério"), série adulta de ficção científica, fantasia e terror, outra obra coordenada por Eiji Tsuburaya.


Após a morte do fundador do estúdio em 1970, Kinjô ficaria pouco tempo na Tsuburaya Pro. Em O Regresso de Ultraman (1971), escreveu "apenas" um episódio, o genial 11, que começava com um grupo de teatro morrendo após gas venenoso brotar do chão. Depois, descobre-se que naquela região o exército japonês, após perder a Segunda Guerra Mundial, havia enterrado uma grande quantidade de tanques de um gás venenoso que haviam desenvolvido.

Mognezun vs Ultraman Jack
Mognezun vs Ultraman Jack

A arma química de destruição em massa fora engolida pelo monstro subterrâneo Mognezun, que ao subir à superfície se tornara uma grande ameaça. O general que havia comandado a operação do mortífero Gás Amarelo no passado já havia falecido, mas era avô de Kishida, um oficial do GAM (Grupo de Ataque aos Monstros), que assumiu para si a missão de limpar o nome da família. A história é forte, tem conotações políticas e permanece incrivelmente atual. Foi o último trabalho de Kinjô com um seriado tokusatsu. Depois disso, voltou para Okinawa, onde trabalharia em uma rádio local.


De volta à sua terra natal, na ensolarada parte sul do Japão, sempre foi engajado contra a presença militar americana no local, iniciada com o fim da Segunda Guerra Mundial. Quando criança, testemunhou suicídios em massa quando Okinawa foi invadida pelas forças americanas. Por tudo isso, seu ativismo pela paz e liberdade era baseado não em ideologias, mas em experiências reais, fortes e traumáticas.


Muito jovem, experimentou o preconceito que existia contra Okinawa por parte de muitos japoneses, que viam o pequeno arquipélago como uma parte "inferior" do Império Japonês. Foi na Tsuburaya Productions que ele encontrou um ambiente acolhedor e teve ampla liberdade criativa para desenvolver histórias e personagens.


Ele e sua família sofreram com a ocupação e ele se tornaria um grande defensor dos interesses de seu povo, que se define com o termo "uchinanchu". (Leia "utinantchú")

Tetsuo Kinjo
Tetsuo Kinjo, okinawano.

Foi um dos organizadores da Exposição Marítima Internacional de Okinawa, em 1975, mas o evento teve vários problemas e lhe trouxe muitas dores de cabeça. Também deu na época uma declaração que repercutiu mal politicamente, sugerindo que as forças armadas japonesas é que deveriam proteger Okinawa, ao invés dos americanos que estavam lá.


Porém, enquanto vários de seus colegas experimentariam grande êxito profissional em longas carreiras, Kinjô teve uma carreira e uma vida curtas. Um dia, chegando do serviço embriagado, caiu de uma altura de dois andares do prédio onde estava. Veio a falecer em 26 de fevereiro de 1976, aos 37 anos, devido a um traumatismo craniano. Sua morte atingiu profundamente todos aqueles que trabalharam e conviveram com aquele homem inteligente, criativo e intenso. Nos anos que se seguiram, foi homenageado inúmeras vezes pela Tsuburaya e é considerado, com justiça, um dos principais criadores do Universo Ultra e seu trabalho é referência até hoje.


Para honrar seu nome, a Tsuburaya estabeleceu em 2017 o Tetsuo Kinjo Award, para revelar novos roteiristas. Mesmo décadas após seu falecimento, ele continua inspirando novas gerações.



Leia também:

- Kazuo Koike, o escritor do Lobo Solitário

- "Shima Utá", a Canção Para Okinawa


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