• Ale Nagado

Valores, virtudes e lições de vida com os heróis japoneses

Um mergulho nos ensinamentos morais dentro do animê, do mangá e do tokusatsu!

Desslock (Yamato), Speed Racer e Tanjiro (Demon Slayer);

Mais do que simples entretenimento ou passatempo ligeiro, as mídias da cultura pop podem transmitir valores, ideais, visões de mundo e formar o imaginário de seus consumidores. Conforme temos visto cada vez mais em tempos recentes, a militância política, especialmente se for ligada a questões identitárias. Isso tem invadido a área dos quadrinhos, do cinema, das séries de TV, dos games e de toda mídia existente, gerando divisionismo na sociedade, longos debates e acaloradas discussões. Todo tipo de arte - seja da chamada alta cultura ou da cultura popular - tem o poder de transmitir mensagens de maneira lúdica e, de certa forma, sempre transmite visões de mundo ao público. A diferença é que antes qualquer mensagem era passada de forma sutil, enquanto hoje existem discursos políticos bem mais explícitos e seguindo agendas ideológicas ditas progressistas. Mas, do outro lado do mundo, esse tipo de debate político tem um peso menor, o que não significa posicionamento neutro na questão de transmissão de valores éticos e morais, muito pelo contrário. Cientes do poder das narrativas ficcionais, muitos criadores da cultura pop japonesa sempre incluíram suas visões de mundo e lições de vida em suas obras, com ensinamentos ligados à postura dos personagens. Com ênfase em valores ligados à família, amizade, honra, resiliência, meritocracia e respeito, os heróis japoneses da cultura pop já transmitiram importantes mensagens ao longo do tempo, muitas vezes causando uma forte impressão no público. Isso já estava presente no mangá, passando então para o animê e para as produções live-action de efeitos especiais, ou tokusatsu. Vamos recordar alguns exemplos marcantes:

Corredor X e Speed Racer: Irmãos, mas somente um deles sabe.

Recordando o enredo do icônico Speed Racer (Maha Go Go Go, 1967), havia o herói coadjuvante Corredor X, que era um agente secreto e também o irmão desaparecido de Speed, Rex, que fugira de casa bem jovem. Os dois pilotos protagonizam um dos momentos que definiram a série, ao participarem da Corrida Alpina, em uma perigosa região montanhosa. No arco triplo intitulado "A mais perigosa corrida" (eps. 9 a 11), contra o piloto Snake, da Equipe Acrobática, vários carros se envolvem em um acidente e Speed é arremessado fora de seu Mach 5, batendo a cabeça e ficando temporariamente cego.

Nisso, o Corredor X, que estava perto dele, o chama e diz que estava com as pernas fraturadas. Apoiando o irmão e andando com dificuldade, Speed chega ao Mach 5, que estava em boas condições. O Corredor X senta ao seu lado e diz que será os olhos dele, orientando sobre qual direção ir e avisando sobre obstáculos no caminho. E Speed encara isso como um trabalho de equipe, dirigindo sem enxergar, mas sob a orientação do Corredor X. Eles conseguem vencer a perigosa Corrida Alpina e Speed é aclamado. Então, ele se volta para o carro, e descobre que seu parceiro havia saído sozinho. É quando ele percebe que era mentira a história das pernas fraturadas, e que o Corredor X fez aquilo unicamente para ajudar Speed a vencer a corrida. Coisa de irmão mais velho, mas Speed só descobriria a ligação familiar entre eles bem mais tarde, no último episódio da série. O arco da Corrida Alpina ainda trouxe outra grande lição, com Speed mostrando que se preocupava mais com a vida de um rival traiçoeiro em perigo do que com a vitória.

Sawamu, o Demolidor

Em Sawamu, o Demolidor (Kick no Oni, 1971), o orgulhoso lutador de karatê Tadashi Sawamura deixa uma vida toda para trás quando abraça um novo esporte, o "chute boxe" tailandês (conhecido hoje como Muay Thai). Isso provocou decepção e rancor no garoto Shibata, que admirava Sawamu e passou a considerá-lo um traidor de uma arte marcial tradicional japonesa. Porém, ao longo da série, Sawamu se reaproxima de Shibata e o faz entender algo importantíssimo: Que ele jamais deixou o espírito de determinação e perseverança que aprendeu no karatê, apenas levou isso para um outro esporte. Essa lição de vida, mostrada ao longo da série, ensinou um valor que transcende até mesmo uma forte tradição local.

O garoto Jiro ouve preciosos conselhos de Hideki Goh (Ultraman Jack).

Em O Regresso de Ultraman (Kaettekita Ultraman, 1971), o herói Hideki Goh era bem mais humano que seus antecessores Hayata/ Ultraman e Dan Moroboshi/ Ultra Seven, encarando dolorosas perdas em sua vida. Antes de partir da Terra, no final da série, dá valorosos conselhos de vida a Jiro Sakata, o pequeno irmão de sua falecida namorada Aki. Depois de tanto sofrer e aprender, Goh diz ao garoto para crescer forte, lutar contra o intolerável e se juntar a pessoas valorosas e honradas. Lidar com as dores do crescimento é algo que tem atravessado os tempos nas produções japonesas. Em Lion Man (Fuun Lion Maru, 1973), o solitário Dan Shimaru se desespera em um episódio quando um jovem se lança à morte para cumprir uma vingança. Ele diz, em plena época dos samurais, que a vida é a coisa mais importante que existe, com uma visão quase cristã.

Yamato: O General Desslock reconhece a nobreza de seus inimigos.

Na segunda série da saga Patrulha Estelar (Uchuu Senkan Yamato 2, 1978), o vilão General Desslock presencia a nobreza e o desespero de seus inimigos, sente compaixão e acaba reconhecendo valores que ele próprio prezava. Os membros da Patrulha Estelar também tentavam salvar sua terra natal ao custo de suas próprias vidas durante a guerra e sacrificavam-se para proteger seus companheiros. Desslock já havia perdido seu reino e lutava apenas por vingança, o que ele percebeu ser inútil. Isso provoca uma mudança drástica na série, com o outrora vilão se tornando um importante aliado em várias ocasiões. Ele não ficou bondoso de repente, mas foi movido por um profundo senso de honra e de respeito a quem ele considerou igualmente honrado e de valor. Foi praticamente uma atitude de samurai, uma analogia que inclusive inspirou uma canção dedicada ao personagem, a "Koutekishu" ~ 好敵手 ("Rival"), gravada originalmente por Isao Sasaki em 1978 e que ganhou versão por Hironobu Kageyama em 2018.

Cavaleiros do Zodíaco: Uma saga repleta de lições de altruísmo.

Altruísmo, senso de dever e solidariedade eram as marcas de Cavaleiros do Zodíaco (Saint Seiya, 1986), que em meio a muita ação, forjou o caráter de muita garotada. Nenhum dos Defensores de Athena hesitava em sacrificar sua própria vida em prol de uma missão ou para proteger seus companheiros. Isso sem contar o esforço pessoal de cada um para enfrentar ameaças cada vez maiores. Esforço e mérito para crescer e aprimorar suas habilidades são características marcantes em inúmeras obras japonesas, mas poucas vezes isso alcançou tanto impacto como em Dragon Ball Z (1989) ou em Naruto (2002). As dificuldades da vida e a forma como lidar com perdas também aparecem com frequência nas séries e desenhos japoneses. Passada menos de um ano após o grande terremoto do Japão de 2011, a série Smile PreCure! (2012) apresentou um episódio tocante onde uma das jovens heroínas tem que lidar com a tristeza e a saudade do falecido pai, enquanto aprende lições de esperança e coragem. Toda essa extensa franquia é cheia de lições sobre crescimento, inseridas em aventuras coloridas e movimentadas.

Smile PreCure!, adaptada para o ocidente como Glitter Force.

Exemplo recente de série toda criada com ênfase em valores morais é Kimetsu no Yaiba ~ Demon Slayer (2019), Nela, o herói Tanjiro Kamado, mesmo tendo sua família chacinada, não persegue vingança em primeiro lugar, mas sim luta para proteger os mais fracos e restaurar a humanidade de sua irmã, sua única parente viva.


Tanjiro é capaz de sentir piedade pelos inimigos caídos, deixando o ódio de lado em prol da compaixão e dos sentimentos de justiça, proteção dos mais fracos e senso de dever. Toda essa construção filosófica veio da autora do mangá, Koyoharu Gotouge, e foi magistralmente adaptada para o animê. Os exemplos são inúmeros e os desenhos e seriados japoneses sempre foram pródigos em transmitir lições de vida, algumas bastante duras, para seus jovens telespectadores.

Histórias edificantes e inspiradoras estão no DNA da cultura pop japonesa, desde os mangás que inspiravam jovens e crianças durante o duro período da reconstrução do Japão no pós-guerra até as dinâmicas aventuras de hoje em dia.


Em um mundo onde cada vez mais o entretenimento tem sido direcionado para difundir agendas políticas e mudar comportamentos, o Japão aparenta ser a última fronteira da liberdade criativa e da defesa de valores universais na cultura pop.

Demon Slayer: Virtudes acima de vingança.

Leia também:


- Ikigai: A força motriz da vida - One Piece: O valor de Luffy

- Cristianismo e cultura pop japonesa


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