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Intercâmbio no Japão - Parte 1

Um relato sobre o projeto de intercâmbio cultural no Japão, realizado em um ano de grandes comemorações.

Tokyo, uma das mais importantes cidades do planeta.

Em 2008, vivi uma das maiores aventuras da minha vida, em uma intensa viagem pelo Japão, país que sempre esteve ligado ao meu trabalho e que eu ainda não conhecia.


Como parte das comemorações do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, aquele era o Ano do Intercâmbio Brasil-Japão e várias atividades relacionadas estavam sendo preparadas.


No Programa de Intercâmbio aos Jovens Líderes entre Japão-Brasil, 25 pessoas foram selecionadas por escritórios estaduais do Consulado Geral do Japão, entre profissionais e estudantes, para uma viagem de uma semana em Tokyo, com todas as despesas pagas. Foram selecionadas pessoas de todo o país, sendo cinco pelo Estado de São Paulo. Houve um processo seletivo para escolher os participantes do intercâmbio.


Primeiro, pessoas ligadas à cultura japonesa foram solicitadas a indicar nomes de pessoas que poderiam se interessar pelo programa. Fui indicado pela professora Sonia Luyten, uma pesquisadora que muito admiro e com quem tenho a honra de ter amizade há anos. Todos os candidatos ao intercâmbio tiveram que preencher um formulário e escrever uma carta de apresentação em inglês. Depois, os pré-selecionados foram convidados para uma entrevista pessoal no consulado japonês.


Sendo realista, minhas chances eram poucas. Era preciso ter no máximo 35 anos e era obrigatório ter formação universitária ou ao menos estar cursando. Eu já contava com 36 anos e completaria 37 durante a viagem. E, para complicar, eu não tenho formação universitária. Mesmo assim, resolvi tentar, afinal na carta de apresentação eu poderia mostrar o extenso currículo que eu já possuía na época ligado à cultura pop japonesa. Era uma chance pequena, mas eu não perderia nada se tentasse.


Finalmente, em 27 de dezembro de 2007, os escolhidos foram contactados. Fui avisado por telefone que era um dos 25 selecionados de todo o país. Parecia impossível, mas estava acontecendo. Tivemos algumas reuniões de orientação no consulado e embarcamos no dia 3 de março, retornando no dia 12 do mesmo mês.

A viagem foi curta (uma semana) e teve uma programação intensa, tanto de cultura pop quanto tradicional. Conheci as cidades de Tokyo, Oizumi, Hiroshima e Kyoto, tudo arranjado pelo MOFA - Ministry of Foreign Affairs - Ministério de Assuntos Estrangeiros do Japão, o equivalente deles ao Ministério de Relações Exteriores do Brasil. Como foi uma visita oficial, houve uma agenda protocolar a cumprir, além dos eventos culturais. Segue agora um breve resumo sobre as atividades e experiências desse intercâmbio, como forma de deixar registrado o que vi, aprendi e vivenciei em minha estadia no Japão. A maioria das fotos faz parte de acervo pessoal, formado por fotos tiradas por mim e pelos companheiros de viagem. O texto original foi escrito e publicado na versão antiga do Sushi POP, pouco depois da viagem, mas foi cuidadosamente revisado e enriquecido para a presente publicação. O Sushi POP surgiu inspirado por essa viagem ao Japão, e pela vontade em seguir produzindo conteúdo, mesmo que não houvesse mais nenhuma revista ou site onde eu estivesse escrevendo regularmente.

2 de março de 2008

Em Guarulhos, já sentindo a emoção da viagem.

EMBARQUE E PRIMEIRO ENCONTRO COM TODOS OS PARTICIPANTES Com tudo preparado para a viagem de intercâmbio, fui para o aeroporto internacional de Guarulhos em uma tarde de domingo. Cheguei lá às 18h30 e logo fui ao guichê da Lufthansa. A partida do Brasil aconteceu às 21h30. No aeroporto, encontrei os outros paulistas que iam junto comigo: Daniel Guimarães, Roberta Regalcce, Miguel Angelo Atênsia e Gustavo Gomes de Almeida. Já tínhamos nos conhecido uma semana antes, na reunião de orientação que tivemos no consulado japonês.

Pouco antes do embarque, conhecemos o pessoal vindo pelo Consulado de Curitiba: Hiroshi Homma, Aline Kashinoki (de Londrina), Myllena Pampuch da Silva, Juliana Endo e Alice Yumi Sinzato.


Os demais, conhecemos no avião e na escala que foi feita em Munique, na Alemanha, a saber: Marcelo Moreira, Carlos Prazeres, Alessandra Maeda e Alex Sakatsume (pelo Consulado do Rio de Janeiro), Adriana Akemi Shibata, Paulo Viana Jr. e Raphael Santana (Brasília), Gabriel Moreira (Porto Alegre), Naguissa Kawada e Rodrigo Almeida (Manaus), Stênio Barros (Recife), Clarice Barroso (Fortaleza) e Washington José de Souza Filho (João Pessoa). Havia mais uma pessoa selecionada que, infelizmente, não pôde participar na última hora, devido a um problema familiar. Pena que não pudemos sair do aeroporto, que é realmente muito bonito e moderno. Depois, pegamos outro avião e passamos todo o resto do dia 3 de março (e uma parte do dia 4) voando. Ao contrário de muitos, eu realmente gostei da comida do avião, meio apimentada. Havia comida japonesa e também pratos internacionais. 4 de março de 2008 CHEGADA NO JAPÃO - PRIMEIRA PARADA: AKIHABARA

Akihabara é um paraíso geek/otaku. (imagem ilustrativa)

Chegamos ao aeroporto de Narita no dia 4 de março às 11h30 da manhã, onde Silvia e Keiko (nossas guias) nos aguardavam. Fazia um frio animalesco, apesar de estarmos perto do final do inverno. Fomos no ônibus fretado até o ANA Plaza Hotel para almoçar e depois fomos conhecer o bairro de Akihabara, paraíso dos produtos eletrônicos e da cultura otaku dos games, mangás, kits, animês e super-heróis. Há lojas exuberantes e tantas outras que são corredores estreitos. Uma em que fui direto foi a Laox, que dá desconto a estrangeiros que apresentam passaporte. Akihabara é um show de cores e luzes e dá pra ficar atordoado com tanta informação. Mas nossa agenda estava apertada e teríamos apenas 2 horas para passear - e fazer compras - pelo bairro. Foi um sufoco, ainda mais se levarmos em conta que estávamos meio atordoados com a longa viagem de avião. Mas foi maravilhoso conhecer aquele lugar doido e movimentado. Mal deu pra comprar algumas lembrancinhas e bugigangas. Não tirei fotos, lembrando que os celulares daquele tempo não tiravam fotos boas, e todos carregavam máquinas fotográficas, a maioria digitais.

Máquinas Gashapon (imagem ilustrativa)

Há várias lojinhas de portas pequenas, que parecem algo do submundo. São lugares meio escuros, onde vendem, entre mangás, games e miniaturas, muita pornografia e itens bizarros. Lá eu experimentei as famosas maquininhas de gashapon, onde você coloca moedas, gira um botão, e cai uma bola plástica com alguma miniatura dentro. As máquinas são separadas por tema ou por série, mas não é possível escolher exatamente o quê vai sair da máquina, o que incentiva a tentar várias vezes. Elas são parecidas com as máquinas de doces que existem por aqui, mas são muito superiores.

O grupo, apelidado de Jovens Líderes.

A PRIMEIRA NOITE Depois, jantamos no luxuoso Tokyo Dome Hotel, anexo ao famoso estádio Tokyo Dome, e finalmente fomos ao Ryokan Homeikan Daimachi Hotel.Trata-se de uma simpática hospedagem em estilo tradicional japonês, em um quarteirão sossegado no meio da movimentada Tokyo. Fazia muito frio (em torno de 2 graus) e o clima estava bastante seco. Mas como a poluição dos veículos é bem controlada, senti bem menos desconforto do que eu sinto no nosso outono-inverno seco e poluído.

Na entrada da hospedagem, com o jornalista da Globo RJ, Marcelo Moreira.

O pessoal ficou dividido em grupos. Lá, todos comem sentados no chão e tomam banho em espaços coletivos (homens e mulheres separados). Tinha chuveiros e ofurô (banheira japonesa de água quente), o que foi providencial pra relaxar um pouco. E nos vestimos a caráter, com quimonos yukata, o que foi bem legal.

Serviram um café da manhã tradicional, mas acrescentaram pão e manteiga, para quem estranhasse o cardápio. Comi tudo.

Os quartos comportavam até três de nós e dormimos do jeito tradicional, no chão, algo que realmente faz muito bem pra coluna. Vale mencionar também o belíssimo jardim do lugar, que ainda tem uma equipe simpática e prestativa.


Exaustos pela viagem, dormimos feito pedra, nos preparando para a grande maratona de atividades que ia começar no dia seguinte.

O jardim do Ryokan, uma obra de arte.
Outra vista do jardim interno do Ryokan.

5 de março de 2008


COMPROMISSO OFICIAL NO MINISTÉRIO DE ASSUNTOS ESTRANGEIROS

Chegando no MOFA - Ministry Of Foreign Affairs

No segundo dia do grupo em solo japonês, logo de manhã, fomos recebidos no MOFA - Ministry Of Foreign Affairs, entidade do governo japonês responsável por nossa estadia no país. Lá, tivemos um bate-papo informal com o diretor de assuntos da América Latina e Caribe, o sr. Akira Miwa, e pela assessora Hiromi Noguchi. Um detalhe: a Hiromi falava português com o adorável sotaque de Portugal, pois já trabalhou em Lisboa.


Em nossa reunião de apresentação, perguntei ao diretor se a mídia japonesa estava dando alguma atenção ao centenário da imigração japonesa no Brasil e ele respondeu afirmativamente.

A maioria dos compromissos era vista como atividade diplomática

,Depois, no hotel, pude conferir um documentário sobre o fato em um canal local, confirmando que o centenário da imigração japonesa no Brasil também é assunto lá.


Uma coisa interessante que o sr. Miwa comentou é que o Japão possui boas relações diplomáticas com dezenas de países, mas somente com o Brasil é possível fazer um projeto de intercâmbio de tamanho porte. Depois do encontro, fomos almoçar no restaurante do ministério. E a Hiromi acabou nos acompanhando em boa parte dos compromissos.


PRODUCTION IG - BASTIDORES DO MERCADO DE ANIMAÇÃO No período da tarde, fomos ao estúdio Production I.G, responsável por famosos animês, como a série Ghost In The Shell - Inocence. Ao lado, ficava o estúdio Tatsunoko Production, que eu tinha muita vontade de conhecer, mas vai ter que ficar para outra vez. Em uma palestra, um responsável pelo estúdio, o executivo Mikio Gunji, comentou sobre a história da animação japonesa e mencionou alguns fatos marcantes: que no Japão os animês se tornaram um fenômeno de massa na década de 1970 com o Encouraçado Espacial Yamato (Patrulha Estelar), passaram a ser levados a sério com as tramas políticas de Mobile Suit Gundam (1979) e ganharam status de arte com a filosofia, sofisticação e beleza visual de Nausicäa (1984) e outras obras de Hayao Miyazaki.

Ele falou sobre crise financeira atual, em parte causada pela pirataria de DVDs, algo que, se não for combatido, pode acabar com o mercado, pois os lucros podem desaparecer. Com relação às aparentemente salvadoras parcerias com empresas de games, ele deixou claro que os estúdios de animação ficam com a menor parte dos lucros.


Tomamos conhecimento de um quadro complicado para a situação do mercado de animês no Japão, desfazendo o aparente glamour imaginado por quem vê de fora. Também comentou sobre as dificuldades pelas quais passam os desenhistas e mostrou cadernos de esboços. Ele se queixou bastante da situação atual e comentou sobre alguns projetos nos quais o estúdio está envolvido.

A antiga sede do lendário estúdio Tatsunoko, a origem do Production IG.

Depois, ganhamos brindes do estúdio, como folhetos promocionais, um cachorro de pelúcia - personagem de Ghost In The Shell 2: Innocence baseado no cachorro do diretor Mamoru Oshii -, um single com uma canção de Innocence e fomos conhecer um dos estúdios de produção. Na verdade, era uma kitchenete bem apertada, com alguns desenhistas trabalhando. Não tivemos permissão pra falar com eles e nem tirar fotos, pois estavam bem ocupados. Ou quase, já que um estava cochilando quando entramos, levou um susto e rapidamente protegeu os desenhos nos quais estava trabalhando. Faltou uma plaquinha com os dizeres "Não alimente os desenhistas". Entramos, vimos quase nada e saímos rápida e silenciosamente. Ainda assim, valeu. MUSASHINO COOKING COLLEGE - WORKSHOP DE CULINÁRIA JAPONESA Fechando o dia com chave de ouro, fomos conhecer a Musashino Cooking College, que oferece cursos profissionalizantes de culinária. Assistimos a uma palestra do mestre (ou sensei) Nakamura e depois partimos para uma aula prática.


Não tenho exatamente grandes dotes culinários ou habilidade com trabalhos manuais, mas consegui ao menos não perder nenhum pedaço de dedo na hora de cortar sashimi e nem me queimei ao preparar tempurá.

Com Hiroshi Homma o outro desenhista profissional do grupo.

Na minha turma, o ator Miguel Atênsia se mostrou bem familiarizado com rotinas de cozinha, bem ao contrário de mim e do Raphael Santana, ambos um pouco desajeitados (pra dizer o mínimo). No nosso grupo, o Alex Sakatsume já era professor de culinária oriental no curso de gastronomia da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro e pôde conferir as dicas com muito mais conhecimento que o resto de nós, mas a diversão foi geral. Depois, orgulhosamente devoramos os pratos que nós havíamos preparado. Não sei se foi a fome, mas eu achei muito bom o prato que eu preparei. Esteticamente, não estava lá muito bonito (e a apresentação conta muito na culinária japonesa), mas eu que não ia ligar pra isso. No final, ainda ganhamos do pessoal da escola dois livros escritos pelo sr. Nakamura e também o belo avental da escola. O primeiro dia de atividades oficiais foi espetacular, e isso era só o começo.

6 de março de 2008 VISITA AO PANASONIC CENTER Em mais um dia em Tokyo, saímos cedo do Ryokan e partimos rumo ao Panasonic Center, onde fomos recebidos como autoridades - sem exagero. Do lado de fora e dentro, uma mensagem de saudação ao nosso grupo, respeitosamente chamado de Young Leaders (Jovens Líderes). Lá, uma demonstradora nos apresentou as principais novidades tecnológicas da Panasonic.

O imponente Panasonic Center.

Chamou a atenção uma impressionante parede digital onde, a um simples toque, pode-se redimensionar o tamanho da tela de TV, mover objetos e até brincar com uma bola e tocar um teclado virtual. Uma casa de alta segurança, com chão aquecido e diversos equipamentos para facilitar a vida dos idosos mostraram uma filosofia em sintonia com a cultura de um país que costuma respeitar os mais velhos. Também fomos apresentados a uma série de produtos que visam promover economia de energia e água, o que é uma grande preocupação em um país de recursos naturais bem limitados.

No Panasonic Center, o grupo sentiu que a viagem tinha um peso diplomático.

Conferência: "CULTURA POP JAPONESA É UMA ARTE"


Depois de almoçarmos em outro hotel, voltamos à sede do MOFA para uma palestra com o Professor Yasuki Hamano, da Universidade de Tokyo, um ex-assistente do lendário diretor Akira Kurosawa e amigo pessoal do diretor de animês Hayao Miyazaki. Ele contou histórias pitorescas sobre esses grandes diretores. Ele descreveu tanto Kurosawa quanto Miyazaki como artistas e cineastas habilidosos com uma visão bastante humanista da vida, em contraste com um modo de ser muitas vezes rude e ranzinza no trato com as pessoas. Ele contou que Miyazaki, certa vez, encontrou um garotinho que disse que assistia Totoro (clássico de Miyazaki) todo dia. Miyazaki se irritou e disse: "Idiota, se ficar vendo desenho todo dia, vai ficar burro! Veja só no seu aniversário!". Sobre Kurosawa, com quem ele trabalhou como motorista, secretário, relações públicas e mais, ele contou outra pérola. Uma vez Hamano perguntou a Kurosawa como ele agiria se tivesse um orçamento de muitos milhões de dólares para um filme. Ao que Kurosawa disse: "Idiota! Se eu tivesse tanto dinheiro, não iria ficar fazendo filmes, ia tentar fazer algo de bom para as pessoas!". Rindo, disse que às vezes pode não ser muito bom conhecer esses gênios de perto.

Yasuki Hamano: Assistente de Akira Kurosawa e Hayao Miyazaki

Homem de hábitos tradicionais e orgulhoso de seu país, o sr. Hamano falou sobre o caráter prático e duradouro da arte japonesa e respondeu a várias perguntas do grupo. Depois de encerrada a palestra, trocamos cartões e tive oportunidade de fazer mais perguntas ainda. Perguntei a ele sobre a ligação entre Akira Kurosawa e o diretor dos primeiros filmes de Godzilla, Ishiro Honda. Em fim de carreira, Honda trabalhou como diretor assistente de Kurosawa em vários filmes, como o aclamado Sonhos. Indaguei se era uma relação de chefe e auxiliar, ou se eram mesmo amigos. Ele respondeu que ambos eram grandes diretores e se respeitavam como tal, além de serem amigos de verdade.

"On Your Mark" - Primeira e única incursão de Hayao Miyazaki pelo J-Pop.

Também perguntei sobre o excepcional clipe On Your Mark (1995), da dupla CHAGE and ASKA, que foi dirigido e escrito por Hayao Miyazaki. Comentei que os cantores declararam na época serem fãs de Miyazaki, já o diretor falou que não tinha interesse por música pop ou rock. Perguntei como nasceu o projeto que reuniu esses artistas tão renomados em suas áreas.


Hamano explicou que o convite partiu da Pony Canyon, a gravadora de Chage and Aska, e que Miyazaki somente aceitou naquela época para equilibrar as finanças de seu Studio Ghibli, que estava passando por algumas dificuldades. Depois do Oscar por A Viagem de Chihiro, ficou impossível para ele aceitar um convite similar. Uma palestra bastante interessante com um homem que tem muita história pra contar.

Conferência: "O NOSSO J-POP" Completando, tivemos outra atividade no mesmo local, onde conhecemos o DJ Taro, um produtor musical e apresentador de TV nascido no Brasil, mas que vive no Japão desde pequeno e fala pouco português. Atencioso, pediu que cada um se apresentasse e falasse sobre um pouco sobre si. Tendo como ponto de partida o J-pop, o bate-papo com ele seguiu para várias direções, como projetos de animê que ele quer desenvolver, bem como o interesse dele em se reaproximar com a cultura brasileira, no caso através de seu trabalho como produtor musical.

DJ Taro

Em certo momento, ele comentou sobre as anime songs a meu pedido. Ele comentou que hoje em dia muitos temas de animês têm sido cantados por astros pop e são músicas sem relação com o enredo da série. Ele explicou que isso acontece por força do mercado e ajuda a projetar as produções para um público mais amplo. Mas, do ponto de vista pessoal dele (e também do meu), é muito importante que a música de uma série fale do personagem ou do enredo, pois isso cria uma identificação imediata. Disse que tem saudades das músicas antigas de animês, que existiam em função da série e a ela se referiam.

Nosso grupo, junto com DJ Taro, um brasileiro que fez carreira no Japão.

JANTAR ESPECIAL NO RYOKAN Já de noite, voltamos para nossa última noite no Ryokan (pois no dia seguinte iríamos para outro lugar) e fomos homenageados com um jantar tradicional japonês maravilhoso, onde experimentei até unagui (enguia), um prato que é uma delícia. Devem ter avisado que nós brasileiros comemos bastante, tanto que a simpática equipe de senhoras que nos atendia não parava de trazer mais comida. Ainda bem que eu não me preocupei com dieta. No dia seguinte, iríamos conhecer uma cidade cheia de brasileiros. Próxima parada: Oizumi

A Tokyo Tower, vista de dentro do ônibus.

TOKYO TOWER Localizada em Tokyo, a imponente Tokyo Tower foi construída em 1958 e tem 332,9 metros de altura, um pouco maior que a Torre Eiffel (com 324 metros), um colosso de metal que é uma das atrações da cidade. Eu a vi apenas enquanto andávamos pela cidade no ônibus fretado. Alguns venceram o cansaço e foram visitar a torre de perto depois que fomos deixados no hotel, mas era tarde da noite e ela já estava fechada para visitação.


7 de março de 2008 DESPEDIDA DO RYOKAN Depois do café da manhã, arrumamos nossas malas e fomos embora do Ryokan Homeikan Hotel, nossa primeira e mais marcante base no Japão. Alguns funcionários foram nos acompanhar até o ônibus e ficaram acenando até sumirmos de vista. A simpatia e boa-vontade deles realmente nos tocou, até porque a maioria já era de certa idade. E que pique eles tinham! Foi uma acolhida, estadia e despedida bastante calorosas. E assim, pegamos estrada para mais uma maratona de atividades. VISITA EM OIZUMI

Os Jovens Líderes em frente à prefeitura de Oizumi. O prefeito está ao centro. Na ponta esquerda, a assessora do MOFA, Hiromi Noguchi. Ao lado dela, uma funcionária da prefeitura.

Oizumi é uma pequena cidade localizada na província de Gunma, próxima de Tokyo. Possui muitas fábricas e tem uma grande concentração de estrangeiros (em sua maioria, brasileiros), que formam 16% de sua população (isso em 2008).


Fomos recebidos pelo então prefeito Hiroshi Hasegawa e assessores e ficamos sabendo várias curiosidades sobre a cidade. Foi uma grande gentileza da parte dele, pois ele estava em plena campanha eleitoral e deixou de lado seus afazeres para nos recepcionar. Depois, fomos para uma escola japonesa.

No ginásio da escola, fomos recebidos como visitantes ilustres.

As crianças nos receberam como autoridades e fizeram uma adorável apresentação musical para nós, ensaiadíssimos e disciplinados. Em retribuição, o Carlos Prazeres, que é maestro assistente da Orquestra da Petrobrás, fez uma apresentação com oboé, instrumento com o qual é solista na mesma orquestra. Depois, as crianças nos entregaram delicados origamis. Andamos pelos corredores para ver as salas de aula. Em uma delas, a professora nos chamou para entrar e conversamos um pouco com a classe. Aí, por sugestão da Roberta, fiz um desenho na lousa para as crianças. Na biblioteca da escola, ficamos sabendo mais sobre o sistema educacional japonês e sobre os esforços para que os estrangeiros matriculem seus filhos nas escolas, o que infelizmente nem sempre acontece. Depois, almoçamos em um restaurante de comida brasileira (onde saboreamos uma boa feijoada) e seguimos com nossa programação.

Em uma sala de aula, fomos apresentados às crianças.

Na escola seguinte que visitamos, conhecemos crianças e jovens brasileiros, todos filhos de dekasseguis. Representantes de classe falaram para nós, visivelmente nervosos e emocionados. Depois, o Hiroshi fez um pequeno discurso como representante do grupo e, então, cada um pôde também dirigir algumas palavras aos alunos. Em minha vez, enfatizei muito a importância deles aproveitarem a estadia no Japão, aprenderem o idioma e assimilar o que o país tem de bom a oferecer. Mas fiz a ressalva para que sintam orgulho do Brasil e que cada nação tem coisas boas e ruins. Me alongando um pouco, falei sobre a importância da cultura para se destacar em qualquer área. O Carlos fez outra apresentação e se arriscou a reger as palmas como acompanhamento ao seu oboé. E o Miguel, que é ator profissional, fez um divertido exercício de interpretação com 3 alunos para divertir a todos os presentes. nos dividimos em vários grupos para conversar com a garotada, o que foi uma experiência muito agradável. Finalizando, entregamos pequenas lembranças aos jovens, posamos para fotos e seguimos para outra atividade agendada, o que nos levaria de volta a Tokyo.


TAIKÔ - EXPERIÊNCIA CULTURAL COM O GRUPO NAGISA TAIKO


Um dos momentos mais divertidos da viagem foi nossa workshop de taikô. Para quem não sabe, trata-se daquele tambor japonês que possui diversas variantes e é tocado em eventos por grupos numerosos.


O som é poderoso, suas vibrações são sentidas na pele e assistir a um show de taikô é uma experiência única. Ver um show exclusivo em um salão fechado então, é privilégio que muito poucas pessoas puderam experimentar. E foi o que aconteceu conosco, ao assistir a uma apresentação do grupo Nagisa Taiko.

Diferentes gerações de uma família dedicada à música e às tradições.

Alguns membros do grupo não só já haviam tocado taikô, como tínhamos músicos especializados no instrumento, como a Naguissa Kawada, Alice Yumi (que tocaria taikô em um show sobre o centenário em São Paulo) e o Fernando Kanashiro. Depois do show, fomos convidados a tocar taikô sob a orientação do pessoal do Nagisa. Meio desajeitadamente (no meu caso), fizemos nosso barulho e pudemos experimentar a emoção de tocar taikô. O grupo ainda ofereceu pra gente um belo e generoso jantar, onde brindamos com muita cerveja e nos divertimos no karaokê. Fiz caricaturas dos músicos, as meninas fizeram uma coreografia para acompanhar uma das músicas e outros tiveram uma aula rápida de origami no meio da festa.

Quando íamos sair do salão, os músicos e seus familiares fizeram um túnel com os braços (tipo festa junina), para que passássemos. E correram atrás do ônibus, mesmo com o frio absurdo que fazia, acenando animadamente. Todos estávamos muito felizes e empolgados. Aquele pessoal sabe como fazer uma festa e ser hospitaleiro! HOTEL-CÁPSULA E MEU PRIMEIRO TERREMOTO (OU QUASE) Fechando a programação, já era noite quando fomos ao Hotel Capsule Inn, no já conhecido bairro de Akihabara. Os hotéis-cápsula são uma opção barata de pernoite, sendo muito usados por trabalhadores que perderam o último trem ou ônibus para voltar para casa.


Em cada cubículo individual, tem rádio, TV e uma cama bastante confortável. Foi bem interessante experimentar esse tipo de hospedagem, que acredito só existir no Japão. Os banheiros são coletivos, separados em masculino e feminino, com direito a espaço para banho ofurô. Havia uma sala com computadores, a única forma de acessar a internet naquela época. A conexão não estava boa, mas vários de nós puderam mandar e-mails para suas famílias informando como a viagem estava se desenrolando.

O conforto - e aperto - de um hotel cápsula.

Na madrugada, ainda houve um pequeno terremoto, que foi sentido pelos que estavam acordados. No meu caso, estava ferrado no sono e nem percebi nada. O que não foi um mau negócio. De todas as experiências que o Japão pode proporcionar, sentir um terremoto não estava entre as minhas prioridades, então foi bom ter sono pesado. Na manhã seguinte, teríamos que levantar muito cedo para ir conhecer o gigantesco e movimentado mercado de peixes de Tokyo.

O dia seguinte também nos levaria a conhecer, de modo impactante, um dos maiores horrores da história da humanidade e também um pouco sobre as artes japonesas.

CONTINUA... つづく (tsuzuku)


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