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Primeiras Impressões: 4 Clássicos do Tokusatsu dos Anos 80

Contando sobre o primeiro contato, em nível profissional, com as séries Spielvan, Metalder, Maskman e Kamen Rider BLACK.

Spielvan, cuja série foi chamada de Jaspion 2 no Brasil.

Aconteceu em algum ponto do ano de 1990. Eu estava trabalhando com quadrinhos licenciados de heróis de tokusatsu, publicando meus primeiros roteiros profissionais, que sairiam pela Editora Abril na revista do Jaspion, lançada em novembro de 1990. Eu era colaborador do Studio Velpa, que prestava serviços para a Alien International, escritório de licenciamento que estava trabalhando com a Tikara Filmes (ex-Everest Video).


Jaspion, Changeman e Flashman eram um sucesso na TV Manchete e outras empresas estavam lançando seus super-heróis. Era o auge da febre por heróis japoneses, e as crianças estavam eufóricas a cada nova aventura. Mesmo não sendo exatamente o público-alvo, eu via aquilo com diversão, não era apenas trabalho.


Eu sou da geração que viveu a infância na década de 1970. Os seriados de super-heróis japoneses que marcaram minha infância foram Ultraman, Ultraseven, O Regresso de Ultraman, Robô Gigante e outros. Mas, quando me deparei com Jaspion e Changeman, em 1988, descobri que o tokusatsu estava diferente, mais movimentado. Era tudo mais corrido, mais superficial, carregado de clichês, mas também muito divertido, com lutas melhor coreografadas, efeitos pirotécnicos e uma trilha sonora bem pop-rock. Guardei as proporções, entendi o contexto, e me permiti curtir aquele formato diferente de seriado.


Com o grande sucesso no licenciamento, a Tikara logo trouxe um novo lote de séries. Alguns colaboradores do Studio Velpa foram chamados para uma reunião na sede do escritório da Alien International pra conhecer os novos personagens com os quais iríamos trabalhar. Avisaram que a Tikara Filmes havia fechado contrato para lançar quatro novas séries e que já estavam planejando o merchandising a ser negociado. Daí, assistimos em primeira mão o capítulo um de cada uma das produções que iriam compor o novo lote de lançamentos.

Maskman, Metalder, Spielvan e Kamen Rider BLACK, que na época eram produções relativamente recentes foram apresentados ao pessoal do estúdio em uma fita de vídeo VHS. Estava tudo em japonês e os episódios foram copiados das fitas matriz que seguiriam para tradução e dublagem. Havia algumas sinopses em inglês, folhetos e material promocional. Eu estava a trabalho, pois era um dos que iria produzir as versões em quadrinhos, mas estava adorando aquela oportunidade única e privilegiada de acesso aos bastidores. Eu não tinha conhecimento prévio sobre nenhum dos personagens. De Maskman eu só tinha visto algumas fotos em um livro importado, mas na época eu mal sabia diferenciar uma equipe da outra. O Spielvan teve algumas fotos usadas por engano nas fitas VHS do Jaspion. Kamen Rider eu sabia que era uma linhagem de heróis que rivalizava com os Ultras, e tinha muita curiosidade de conhecer um herói da franquia. Do Metalder eu havia visto um folheto promocional (muito bem produzido, por sinal) antes de assistir. E só. Quando fomos chamados para conhecer os novos personagens da Everest/Tikara, creio que o Metalder já havia estreado, mas eu não havia conseguido assistir, por conta de muito trabalho na época. Algumas memórias daquele tempo são imprecisas, confesso, pois além dos quadrinhos, eu estava envolvido com trabalhos em eventos de caricaturas e ilustrações para pequenas agências. A década de 1990, aliás, foi bem intensa para mim, pois depois do material de tokusatsu, viriam os quadrinhos de Street Fighter (1993) e a revista Herói (1994). Naquela época, não existia internet, as fontes de informação eram escassas e fitas de vídeo japonesas eram uma raridade e difíceis de conseguir. Então, achei interessante tentar relembrar abaixo quais foram as minhas primeiras impressões perante o que estava vendo, completando em seguida com minhas conclusões após ter visto cada série inteira.

SPIELVAN (1986)

Lady Diana e o Guerreiro Dimensional Spielvan

De cara, achei o visual muito interessante e gostei de ver que o herói tinha uma companheira que também usava uma armadura de combate. O ator Hiroshi Watari eu já havia visto em ação em Jaspion como o coadjuvante Boomerman e o herói-título de Sharivan. Em Spielvan ele interpretou um tipo mais ou menos parecido com os outros, e estava legal como sempre em suas cenas de ação. E Spielvan tinha um elemento dramático que chamava a atenção e dava um contraste enorme em relação ao Jaspion. Ele e Diana eram sobreviventes de um mundo destruído e buscavam vingança contra os responsáveis, bem como impedir que devastassem também a Terra. Separados de seus pais ainda crianças, cresceram dentro de uma nave que foi enviada à Terra. A armadura de Spielvan era parecida com a de Jaspion, porém mais detalhada, e eu achei um design mais elegante. Além disso, Spielvan e Lady Diana pareciam mesmo um casal com uma ligação afetiva forte, diferente de irmãos ou companheiros de armas. Quando o herói se preparava para o golpe final com sua espada laser dupla (anos antes do Darth Maul de Star Wars), havia um rápido flashback com Spielvan sendo separado dos pais ainda criança. Era o que impulsionava seu furioso - e MUITO legal - ataque fatal, que destruía praticamente qualquer oponente. Diana era menos poderosa, mas oferecia um importante suporte nas batalhas, conseguindo recarregar o herói quando sua energia se esgotava, além de seus golpes combinados.

Diana (Lady Diana) e Kenji Sony (Spielvan)

Conclusões: Spielvan teria altos e baixos, mas no geral era bem interessante. A dinâmica dos atores funcionava bem. As atrizes davam seu show, com Makoto Sumikawa interpretando uma Diana heroica, divertida e com um dos trajes civis mais econômicos (se é que me entende) que uma heroína japonesa de tokusatsu já teve. E Naomi Morinaga, como a atormentada Helen, também mostrava enorme potencial. Quando ela deixou de ser a vilã Herbaira e se tornou a heroína Lady Helen, teve uma aparente redução de poder. Mas o trio central de atores fez um ótimo trabalho, tanto nas cenas de ação quanto naquelas que exigiam drama ou humor. Spielvan foi uma série escrita quase que totalmente (incluindo o início e o final) pelo grande Shozo Uehara, o que explica seu apelo dramático. A série, infelizmente, teve um final horroroso, com explicações confusas e mal remendadas sobre viagem no tempo pra justificar um final feliz e alegre - até demais. Spielvan seria licenciado aqui como Jaspion 2 - Spielvan. A série estreou no Brasil pela TV Manchete em 15 de abril de 1991, ao lado de Maskman e BLACK. Jikuu Senshi Supiruban (Guerreiro Dimensional Spielvan) teve 44 episódios.


MASKMAN (1987)

Defensores da Luz Maskman e seu Jato Canhão.

Eu sabia pouco sobre Super Sentai, gostava muito de Changeman e um pouco menos de Flashman. Mas eu pirei já com a abertura. Primeiro, reconheci de cara a voz do Hironobu Kageyama, que eu já gostava muito naquela época, já que ele cantava músicas em Changeman e Dragon Ball Z. A edição ágil de imagens na abertura, com efeito estroboscópico nas movimentações (obtido com a supressão de alguns frames de cena), me deixaram de queixo caído. Havia uma profusão maior de efeitos pirotécnicos e de raios, bem como uma coreografia mais elaborada. O design dos uniformes eu considero um dos mais bonitos até hoje.


O primeiro episódio é bem dirigido, mostra um clima de romance entre Takeru (depois, rebatizado aqui como Takeo) e Miho, apresenta os personagens e estabelece já uma trama paralela. Red Mask precisava salvar sua namorada enquanto lutava ao lado de seus amigos contra o Império Tube. A estrutura geral, com o império inimigo, o quinteto colorido e seus veículos, seguia o mesmo padrão que eu já havia visto em Changeman e Flashman, mas a produção era um pouco mais arrojada, com visual mais agressivo. Episódio que cumpre bem o papel de apresentar a série e despertar interesse no público, gostei bastante do que vi.

Sayaka (Yellow), Keiko (Pink), Takeo (Red), Kenta (Black) e Akira (Blue)

Conclusões:


Apesar das lutas bacanas e vários episódios bons, Maskman se mostraria uma série um tanto irregular. Teve altos e baixos, alguns episódios muito enfadonhos e previsíveis e outros que realmente ficaram muito bons. A sequência em que Akira, o Blue Mask, vira inimigo, a chegada do Galaxy Robô e a rápida participação do Mask X-1 são alguns momentos que valem um registro. Mas o desfecho da série foi bem decepcionante, com o grande vilão sendo derrotado como mais um "monstro da semana".

[Spoiler: O Red Mask passou a série INTEIRA tentando salvar a amada Miho para, no final, ela largar dele pra ir reconstruir o Reino Subterrâneo, do qual era princesa herdeira. Caramba, que fosse junto com ela, aquele... panaca!] Hikari Sentai Maskman (Esquadrão da Luz Maskman), que no Brasil ficou como Defensores da Luz Maskman, teve 51 episódios e um especial de cinema, não exibido no Brasil.

METALDER (1987)

Metalder, o Homem-Máquina

Outro que me impressionou já na abertura. Reconheci a voz do Isao Sasaki, o cantor do tema da Patrulha Estelar, e senti o clima dramático logo de cara. O Imperador Neroz e seu exército de seguidores eram mais interessantes que qualquer outro inimigo já visto. Neroz era um milionário que agia nos bastidores do crime para manipular os rumos do Japão e mesmo da humanidade, algo bastante realista. Ele já se sentia o senhor do mundo, ou de parte dele. A trama era mais madura, e Metalder é derrotado em sua primeira batalha, mostrando que a luta seria árdua. Foi a primeira vez que vi um herói ser vencido no primeiro episódio, um grande trabalho do roteirista principal da série, Susumu Takaku. A trilha sonora, cortesia de Seiji Yokoyama, dava o tom exato de poesia, heroísmo e grandiosidade épica.

Imperador Neroz

Conclusões:


Foi uma das melhores séries da década de 1980, mas teve baixa audiência no Japão. Os vilões eram carismáticos, e ameaçadores, enquanto o interesse amoroso do herói, a fotógrafa Maya Aoki era realmente encantadora. Porém, o tom melancólico e sério não foi bom em termos de audiência. Tentaram deixar a série mais leve com a entrada do motoqueiro Satoru, vivido pelo ex-Change Griphon, o figuraça Hiroshi Kawai, mas não deu muito certo. Ao menos, terminaram a série com dignidade e coerência. A conclusão da série é emocionante e sedimentou a aura cult que a produção ganharia ao longo dos anos.


Aqui, estreou na Bandeirantes em 2 de abril de 1990 (ficando no ar até o final do ano) e não teve produtos licenciados, ganhando apenas duas míseras páginas no álbum de figurinhas Jaspion 2 - Spielvan. Chôjinki Metalder (Super Homem-máquina Metalder) teve 39 episódios, mais um especial de cinema que permanece inédito no Brasil. - Review sobre METALDER

BLACK KAMEN RIDER (1987)

Black Kamen Rider, o Homem-Mutante

O primeiro episódio de BLACK considero o melhor episódio inicial de um seriado tokusatsu nos anos 1980. Aliás, um dos melhores de todos os tempos, com roteiro de Shozo Uehara e direção de Yoshiaki Kobayashi, dois mestres. A primeira metade do episódio mostra um assustado jovem fugindo de três seres fantasmagóricos, com um clima tensa e direção primorosa. Depois, na segunda parte, somos apresentados à história dos dois irmãos de criação escolhidos pela seita Gorgom para serem transformados nos candidatos a Imperador Secular. Eles recebem implantes com os cristais King Stone e um deles consegue fugir antes de ter sua memória apagada. É Issamu Minami, que se torna o herói Black Kamen Rider. Já seu irmão de criação, Nobuhiko Akizuki, viria a se tornar, muitos capítulos depois, o vilão Shadow Moon. A trilha sonora de Eiji Kawamura me impressionou e era empolgante. O tema de abertura também se tornou um dos meus favoritos, tendo sido cantado pelo ator principal, Tetsuo Kurata.

Issamu Minami

Conclusões:


O tom mais sombrio e maduro seria diluído durante a série, mas haveria muitos clássicos. O final (que levou anos para ser exibido via streaming oficial no Brasil) foi triste e depressivo, mas coerente com a história apresentada desde o início.


Como todos devem saber, a saga de Issamu Minami continuou em Kamen Rider BLACK RX, que teve um tom geral mais otimista e leve. Na época em que foi lançado no Japão, BLACK foi um novo começo para a franquia, com um direcionamento arrojado. De todos os seriados citados aqui, é o que mais preserva no Japão a aura de clássico. O mangá original do criador Shotaro Ishinomori foi lançado pela editora NewPOP em 2022. Ganhou um controverso reboot em 2022, intitulado Kamen Rider BLACK SUN.

Kamen Rider BLACK teve 51 episódios e dois especiais de cinema. - Review sobre Kamen Rider BLACK

Considerações finais: Olhando em retrospecto, todas as quatro séries tinham em comum um clima dramático, ao menos no início. Era aquela dose de melancolia e drama que só um seriado japonês consegue e isso foi muito bem recebido pelo público, que já estava acostumado ao humor presente nas outras séries. Foi uma época bastante marcante para os super-heróis da Toei Company, com muitas obras memoráveis. Lembro que, depois de ver aqueles quatro episódios iniciais em sequência, eu estava me sentindo um moleque empolgado. Infelizmente, publiquei quadrinhos somente sobre uma das produções. Metalder e Spielvan eu cheguei a escrever uma história de cada. Foram todas pagas, mas nunca utilizadas. Do BLACK eu tentei fazer um projeto de gibi individual e até esbocei uma adaptação do episódio um, mas não deu certo e o herói foi incluído no mix que foi a revista Heróis da TV, que foi produzido pela equipe da Editora Abril, e não mais pelo Studio Velpa. Para os quadrinhos de Maskman eu roteirizei três histórias, mas nada muito digno de nota. Posteriormente, eu faria alguns trabalhos com outras séries relacionadas, mas isso é assunto para outro depoimento. As quatro séries deram continuidade à invasão dos heróis japoneses e ajudariam a fazer daquele tempo uma época inesquecível para toda uma geração. Foi bem divertido acompanhar e fazer parte daquele momento. LEIA MAIS

- Arquivo: Séries de TV e Web (Lista de reviews)


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